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reportagem
Ler é algo inexplicável

'Estamos condenados à civilização. Ou progredimos ou desaparecemos', disse certa vez Euclides da Cunha. Não à toa, o autor foi escolhido como homenageado na estreia da Tarrafa Literária — 1º Encontro Internacional de Escritores, em Santos, litoral de São Paulo. O progresso, aqui, foi representado por um círculo de palestras, debates e oficinas acerca do movimento cultural e literário da atualidade.

Há cerca de dois anos em amadurecimento, o projeto, do livreiro José Luiz Tahan, finalmente foi realizado. 'A minha ideia era proporcionar um grande encontro entre escritores e seus leitores. Além de inserir a cidade de Santos como parte de um circuito de eventos desse tipo no País', explicou. Atualmente, existem duas fortes representantes nesta linhagem: a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), no Rio de Janeiro, e a Fliporto (Feira Literária Internacional de Porto de Galinhas), em Pernambuco. O evento foi sediado no Teatro Guarany, construção municipal do ano de 1882, reinaugurado em dezembro do ano passado após cinco anos em obras de revitalização.

Participaram do encontro nomes como Ruy Castro, Heloisa Seixas e Ricardo Kotscho, discutindo o antagonismo entre a internet e as publicações impressas; Matthew Shirts, Xico Sá e Vladir Lemos, que trataram de futebol e literatura; e o australiano Tim Winton, autor do best-seller Fôlego (Editora Argumento), e Amyr Klink ('Mar sem Fim' e 'As Janelas de Paraty'), mediados pelo jornalista e crítico Arthur Dapieve, participaram da discussão 'Livros que molham'. Os convidados falaram sobre o fascínio em escrever sobre aquilo que se tem afinidade. Amante do surfe, Winton admitiu: 'Apesar da grandeza indescritível, eu escrevo sobre o mar porque preciso. E, no fim, porque eu posso'. Klink fez uma analogia entre a simplicidade de viver e da escrita. 'Quanto mais trabalho sofisticação, mais valorizo as coisas simples. O livro é um objeto simples, mas é fantástico', afirmou. A filosofia maquiada na música e nas expressões artísticas, a identidade nacional, a subjetividade no jornalismo, a cultura oral, a crítica e a mistificação do trabalho do escritor também foram temas discutidos, cada um em sua área de interesse, pelos convidados Theo Roos, Marcia Tiburi, Mona Dorf, Jorge Caldeira, Laurentino Gomes, Milton Hatoum, André Laurentino e José Roberto Torero.

As crianças também tiveram espaço reservado na Tarrafinha, que, de acordo com Tahan, pai de duas meninas, de um e três anos, foi um cuidado mais do que merecido, visto que 'as crianças são o futuro e devem ter o conhecimento cultivado desde o começo da vida'. Lá, os pequenos puderam participar de contação de histórias e oficinas de confecção livros de pano e brinquedos com materiais recicláveis.

Com mais de mil visitantes em cinco dias de evento, a Tarrafa Literária edição 2009, encerrou com a satisfação dos organizadores. Mesmo com algumas mudanças de roteiro, como a ausência do convidado canadense Jeremy Mercer, que sofreu problemas burocráticos e não conseguiu embarcar, para a equipe, o saldo foi positivo. 'Viemos para ficar e espero que a Tarrafa faça mesmo parte do calendário de eventos da Cidade', disse Tahan. Capitu traz, abaixo, parte das discussões levantadas na Tarrafa; a opinião de Ruy Castro sobre a suposta ameaça dos e-books aos livros de papel e à imprensa; e Milton Hatoum sobre a literatura ter perdido espaço para o cinema e a internet.

'O investimento em livro nunca é mal-feito', diz Ruy Castro

Debatendo com a esposa, Heloísa Seixas, e sob mediação do companheiro de profissão Ricardo Kotscho, o escritor Ruy Castro foi o primeiro convidado a participar do circuito de palestras. Em seu discurso, Castro mostrou-se a favor da permanência indeterminada do livro impresso, mesmo na era digital.

'O livro é o objeto perfeito. Você não precisa de aparelho algum para ler, como precisa para tocar um CD. Ele tem o tamanho certo, pode ser folheado. Precisar de um aparelho qualquer para manuseá-lo é desconfortável', defendeu.

Para ele, os e-books (livros virtuais) não representam uma ameaça aos livros de papel. 'A palavra impressa tem muito mais peso, ela reforça a idéia daquilo que se lê', explicou.

Quanto aos jornais, Castro acredita que perigam ser engolidos pela rede mundial de computadores, a internet, já que não possuem o mesmo dinamismo que ela dispõe. 'A internet tem texto, gráficos, imagens, animação. Tem a agilidade que os jornais não têm. Ou eles se reciclam ou correm um risco'.

Até mesmo Nelson Rodrigues foi lembrado pelo convidado, o qual contou ter aprendido a arte da escrita através da leitura da obra do saudoso escritor. Já a mulher, Heloísa, também escritora, disse ter tomado gosto pela leitura por meio dos momentos em que ouvia histórias contadas pela avó. E essa didática parece ter surtido efeito. 'A Heloísa não apenas escreve bem, como ela fala bem. Sua fala tem até ponto-e-vírgula', comentou Kostcho.

Autor de famosas e respeitadas biografias (Carmen: Uma biografia e Estrela Solitária: Um brasileiro chamado Garrincha), Castro tenta expor ao público o segredo do sucesso na escrita. 'Quando entro numa livraria, me sinto cercado de amor. E mesmo que a pessoa não comece na infância, ela pode se apaixonar pela leitura ao longo da vida. Ler é algo inexplicável'.

'Depois da TV, cinema e Internet, a literatura perdeu importância', lamenta Milton Hatoum

O escritor Milton Hatoum entrou em cena junto ao colunista André Laurentino, ambos mediados pelo cineasta José Roberto Torero. Os principais temas do debate foram a literatura regional, a crítica e a inspiração dos autores.

Para Hatoum, o relevante das histórias regionalistas não é a pura descrição da localização onde se passa a trama, mas a forma como ela é contada. 'O lugar não é o mais importante e sim a linguagem. A obra do Graciliano Ramos, por exemplo, transcende o regionalismo. Suas obras são todas maravilhosas', explicou. Por sua vez, o mediador, José Roberto Torero, assentou o comentário de Hatoum defendendo a ideia de que quanto mais a narrativa for próxima dos fatos, melhor será a compreensão do leitor. 'Por mais que os ficcionistas se esforcem, a realidade é imbatível.'

A sensibilidade do leitor foi exposta por Laurentino como um combustível a alimentar o prazer pelo o que se lê. 'É possível dizer grandes verdades através de mentiras. E o leitor tem que ser tão poeta quanto o escritor, para encontrar no texto significados que nem o autor encontrou', ressalvou.

A dupla comentou ainda sobre a importância e o impacto das críticas na análise de uma obra. 'A boa crítica deveria ser como uma guia aos olhos do público, como quem lhe apresenta uma paisagem', disse Laurentino.

Já Hatoum, em tom de desabafo, declarou que a crítica é aquela que tem por objetivo desqualificar o livro, porque, na verdade, quer atingir o autor. 'Me irrita essa mistificação do trabalho do escritor. É um trabalho como outros, só que exige um talento específico. E escritor não sofre [com as críticas ou contratempos do trabalho]. Quem sofre é a mulher da periferia de São Paulo, que pega três ônibus para chegar no emprego às oito da manhã', afirmou.

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