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debate público
Criança, a alma do negócio

A sensação é de que estamos perdendo, graças à publicidade desenfreada, algo que era valioso

Criança — A Alma do Negócio, documentário de Estela Renner, ganha o telespectador em cenas que chocam por que se nos mostram absurdas. Por exemplo: coloca-se duas folhas de papel — uma escrito 'comprar' e outra escrito 'brincar' — na frente de um grupo de crianças. Pede-se que coloquem a mão sobre a opção que preferem. Adivinhe o desfecho. Seria poético, 'natural' e agradável que aquelas crianças escolhessem brincar, mas a maioria escolhe comprar. Isso está em grande desacordo com o que esperamos da infância, e por isso nos choca. Outros exemplos: vários pequenos entrevistados não conseguem identificar algumas frutas e legumes, mas, é óbvio, podem reconhecer qualquer pacote de salgadinho mesmo com a marca coberta. Uma delas diz: 'O suco da fruta eu não sei se é bom, eu nunca tomei'.

A sensação é de que estamos perdendo algo que era valioso, e o estamos perdendo graças à publicidade desenfreada que torna crianças adultos e consumistas precoces. Esse é o mote; o documentário analisa o que filão infantil representa para as agências de publicidade, leis de outros países que regulamentam o tema com mais rigidez e, além da fugacidade do comprar, que não satisfaz as crianças e determina um ciclo de compra, prazer curto e nova compra, também estuda como esse consumismo acaba funcionando como determinante da identidade infantil dentro do grupo. Abrange também os problemas de saúde que decorrem da propaganda sem limites de alimentos como salgadinhos e bolachas. Mais um exemplo de cenas que chocam porque absurdas, vemos que um pacote de bolacha representa meio copo de óleo e quase um copo de açucar. Daria isso para o seu filho?

O jornal Estado de S.Paulo entrevistou a diretora. Abaixo, assista no Youtube, completo. Depois do vídeo, você lê uma entrevista que delineia os problemas da perda da brincadeira e apresenta um contraponto, o projeto Mapa do Brincar.










Mapa do Brincar

O projeto Mapa do Brincar é um contraponto a situação denunciada pelo documentário. O projeto é realizado pelo suplemento infantil da Folha de S.Paulo, a Folhinha, e tem como objetivo mapear brincadeiras (tradicionais e suas variações, ou não típicas) em todo país. O blog da Capitu tratou dele. Aqui, entrevistamos uma das especialistas responsáveis, junto à Folhinha, pelo projeto: Adriana Friedmann, do grupo Aliança pela Infância.

Capitu — Qual a importância do brincar para as crianças? No que isso colabora para a formação da identidade e em que isso influi no adulto futuro?

Adriana Friedmann — O brincar é a linguagem das crianças, o canal através do qual elas expressam o que vivem, o que sentem, quem são, suas habilidades, interesses e potencialidades. Elas brincam e através do brincar vivem suas vidas e descobrem o mundo e as pessoas à sua volta. Elas se formam e se desenvolvem brincando e é através das suas brincadeiras, da sua arte, da diversidade de movimentos que elas irão experimentar seus corpos, suas emoções, seus valores, irão conhecer e se reconhecer. Brincar é essencial para a vida presente e futura das crianças, a oportunidade de serem em suas essencias mais profundas e de exercerem sua

Capitu — O que constitui a brincadeira? Socialização, diversão, aprendizado? Por que os brinquedos que as crianças seguidamente compram não as satisfaz? O que falta neles?

Friedmann — Os brinquedos são verdadeiramente pontes para a criança comunicar-se com os outros. Podem servir em muitos casos para saciar curiosidades ou como estímulos para diversas áreas de conhecimentos. Mas os brinquedos hoje são muito mais objetos de desejos 'líquidos' (na concepção do sociólogo Zigmunt Bauman), no sentido de serem descartáveis: as crianças rapidamente cansam deles, procurando outros que os preencham. São muito mais desejos passageiros de ter, possuir, mas ocos por não preeencherem os vazios existenciais e de afeto e atenção que as crianças pedem, através deles, para seus pais e cuidadores. O que falta nos brinquedos é eles serem partilhados com outras crianças e adultos pois eles se esgotam neles mesmos por não substituírem as profundas carências que as crianças de todas as idades e faixas sócio-econômicas têm hoje de insatisfação, pela falta de presença e de tempo do adulto para com elas.

Capitu — Os pais devem se preocupar com uma situação em que os filhos preferem comprar do que brincar? O que esses pais podem fazer para modificar esse cenário?

Friedmann — O caminho verdadeiramente importante está na reconexão desses pais com a criança que foram um dia e, a partir deste mergulho, retomar um caminho de comunicação com seus filhos através da partilha de brincadeiras, atividades plásticas, físicas, musicais, passeios, jogos, saídas, viagens, etc. Rememorar seja talvez a forma dos pais conseguirem compreender onde está a falta que seus filhos tentam preencher com o consumo desenfreado.

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