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Livros e Ideias
Sade, Corpo e Libertinagem


Ilustração de Juliette, Sade (1797-1801)
Sade, o libertino e o perverso, afirmava que o prazer se consagra como única finalidade diante de qualquer valor. Para ele, o gozo é supremo e possui suas exigências, suas organizações e suas regras.

Donatien Alphonse François de Sade, o marquês de Sade, nasceu em 2 de junho de 1740 e morreu em 2 de dezembro de 1814. Foi um aristocrata e um libertino; escreveu suas obras encarcerado dentro de um hospício. Escrevia perversões e erotismos, a própria palavra sadismo foi criada a partir de seu nome. Nos interessa na medida em que mostra, como um espelho, o prazer e o erotismo, a vontade de prazer e a vontade de dor, as pulsões animais que existem em nós. No texto abaixo, Kybelle de Oliveira Rodrigues, que é mestre em literatura pela Universidade de Brasília (UNB) e cuja dissertação foi O Imaginário de Sade no Cinema Pornô, escreve sobre Sade, libertinagem e erotismo, abordando teóricos como Freud, Lacan e Bataille.

Eu fui sempre virtuoso sem prazeres...
Eu teria sido criminoso sem remorsos.

Assis Chateaubriand. (In. 'A paixão da Marquesa de Sade', ed. Edigraf, p.11, 1979.)

Crítica

Sade, o libertino e o perverso, afirmava que o prazer se consagra como única finalidade diante de qualquer valor. Para ele, o gozo é supremo e possui suas exigências, suas organizações e suas regras. Imposição de uma inesgotável pulsão, de um tema único, repetido ao infinito. Com isso, pode-se dizer que a libertinagem faz fronteira com a crítica e transforma-se em filosofia por um lado e, por outro, apresenta-se como mote para a blasfêmia, o sacrilégio e a profanação.

Pode-se dizer que é em nosso corpo que experimentamos o êxtase, a vertigem de um obscuro mundo que nos consome e que nos constitui como objeto de gozo diante de nós mesmos. Esse gozar torna-se supremo, pois tende ao inimaginável, ao inumano, ao ilimitado, e é onde o indivíduo estabelece, para si mesmo, a possibilidade de abertura para o sentimento/sentido de obscenidade. A subversão do corpo a partir do binômio 'proibição-transgressão' configura-se como uma forma importante para a compreensão do sujeito erótico.

Refletir sobre tais possibilidades de interação do corpo como objeto de prazer, é fornecer ao indivíduo certa autenticidade, um lugar no mundo. De alguma maneira somos obrigados, o tempo todo, a nos refazermos, a nos reinventarmos como sujeitos de nossos desejos. Sugerir esse corpo, dentro de um contexto da pornografia, por exemplo, se constituiu na História, como potência plena em que o ser humano se questiona e se apresenta no processo de deleite dos sentidos, do êxtase que renuncia a qualquer padrão ou interdito.


Ilustração de Juliette, Sade (1797-1801)
É nesse contexto que surge uma das figuras mais polêmicas da história ocidental: o francês libertino Marquês de Sade. Assim, torna-se importante uma breve retrospectiva sobre a época da qual Sade fez parte, séculos XVII - XVIII, e sobre como a pornografia se relaciona com o libertino.

Os chamados libertinos, os quais possuem Sade como seu mais ilustre representante, eram contestadores do regime vigente, de modo a retratar a hipocrisia social e cultural que se estabelecia no antigo Regime. A filosofia do Regime, que vigorou até a época da Revolução Francesa, visava a restauração do homem segundo preceitos morais estanques. Nesse sentido, permite, dentre outras medidas, o fundamento de prisões-modelos com seus mecanismos particulares de controle, afirmados em discursos 'científicos', tidos como 'discursos da verdade' e capazes de suplantar a verdade da religião, até então reinante.

Vista sob uma perspectiva histórica, a libertinagem remonta ao século XVI, época já marcada pela rebeldia, pela reivindicação do pensamento que vai contra os dogmas propostos pela Igreja à época. Suas primeiras manifestações coincidem com o surgimento, em vários lugares da Europa, de novas correntes culturais e políticas que ameaçam a hegemonia da história sacra tradicional, tendo como representantes mais radicais os chamados rebeldes ou libertinos. Constituem-se em escolas de pensamento que, de forma 'vulgar', referem-se à oposição entre os ensinamentos da fé e da moral, às constatações da experiência cotidiana. A libertinagem reveste-se pela marca da dúvida, da contradição e, em geral, os libertinos são considerados oponentes primordiais da religião.

Mas é justamente com a figura de Sade que o termo libertinagem atinge o seu apogeu, uma vez que ele exacerba, por meio de sua imaginação, as cenas e escatologias, as variações, as combinações e as revelações sobre a verdade do homem, um dos aspectos motriz de sua motivação. O que Sade revela e afirma é a supremacia do desejo ou, em outras palavras, nossa parte mais humana. Mesmo a dita normalidade é para Sade uma transgressão, uma vez que, sem ela, não há libertinagem, não há leitura, não há interpretação. Sem a pele, sem o corpo, sem a intensidade dos obscuros aspectos do prazer até o seu ápice, sem a palavra, sem a contradição, não há o libertino, porque o libertino é aquele que vive com a contradição, o ilógico, o paradoxal, o desmedido, já que o tempo todo ele questiona e transgride a norma.

Dessa forma, o libertino, também chamado de 'livre-pensador' trazia mensagem da liberdade do homem, que deveria ser plena e ilimitada, uma vez que o ser humano é parte integrante da natureza: ele é pulsional. Falar em pulsões é configurar aspectos obscuros que entremeiam o ser humano. A pulsão tem, como foco, a questão do prazer, do desejo de olhar/mostrar e, em seu cerne, aborda aspectos como o da crueldade, do sadismo e do masoquismo, ou mesmo, o de um corpo que se rasga, se transforma e se restabelece em contato com o objeto de seu gozo. Sob sua dupla forma ativa/passiva, masoquismo/sadismo, a pulsão está intimamente ligada à crueldade, a qual remete à pulsão de domínio.

A partir do conceito de pulsão elaborado por Freud e, mais tarde, retomado por Lacan, e tendo como base a escrita de Sade, pode-se inferir que esta escrita é a compreensão dos sentidos que estão não na superfície do corpo-escrita, mas nas entrelinhas, compondo uma ideia libertina de virulência do desejo submetido à eterna vontade de um gozo que perpassa a crueldade. Ou, como sugere a estudiosa de Sade, Eliane R. Moraes (1994): 'a libertinagem propõe a fusão do espírito e da carne (...) Sade nos conduz à profundidade que é a do campo erótico'.

Essa vontade de gozo implica o ilimitado desejo da fantasia erotizada em cada indivíduo, em cada leitor de Sade. Ao abordar os estudos feitos por Georges Bataille, Eliane R. Moraes (2002) escreve:
Na origem do desejo estaria uma vontade do ser de se projetar fora de si, para estabelecer laços sensíveis com o universo exterior. Para Bataille, contudo, a metamorfose representa ainda mais que isso: trata-se efetivamente de uma condição atávica do homem que, no limite, o impede de identificar-se por completo com o ideal humano, remetendo-o às suas violentas necessidades animais (...) Na concepção batailliana, o corpo humano figura como suporte original das metamorfoses: ele contém, em si, a capacidade de desdobrar-se em outros e, conseqüentemente, de projetar-se fora de si. Essa transformação exemplar – que se manifesta nos grandes momentos em que o homem recorre às forças bestiais – representa o ato inaugural de uma vertiginosa cadeia que se prolonga indefinidamente.


Ilustração de Juliette, Sade (1797-1801)
Em uma busca de compreensão do pensamento de Sade é necessário ter-se em mente que a fantasia erótica, proposta por ele, é muito mais do que a nudez dos corpos, ela é a reinvenção de nossos aspectos subjetivos mais subterrâneos. Deleuze (2001), em apresentação de Sade-Masoch, faz uma pergunta bastante instigante: 'que significa a conjunção entre violência e sexualidade, em uma linguagem tão profusa, tão provocadora como a de Sade?'. Diante de tal pergunta tem-se, como resposta, a equivalência entre todos os seres do universo, sem conferir nenhum privilégio ao homem.

É por meio da literatura sadeana que o autor libertino alcança seu ideal máximo, ou seja, ao vincular filosofia e erotismo ele confere a si mesmo e aos leitores, o status de sua peculiaridade enquanto escritor e pensador. Nesse sentido, pode-se dizer que Sade inventa uma perversão, um ensino sobre o gozo. Isso, em outras palavras, é o deleite, é a imaginação do ser que se guia e que se movimenta, por meio de seus atos e de seus pensamentos, em direção a um prazer essencialmente destruidor. Tal processo torna evidente que o limite, a destruição e o prazer na obra sadeana, deixam transparecer que, não havendo limites para a decomposição, para a destruição humana, tal processo é interminável. Ele é a relação entre a continuidade e a descontinuidade infinita que Georges Bataille (2004) propõe em seu ensaio sobre o erotismo.

Em Sade, ainda, deve-se levar em consideração que a noção de Natureza Humana confunde-se frequentemente com a do libertino. Este, livre das interdições e preconceitos culturais, despojado das condutas morais, e abandonado ao 'Prazer' (da transgressão), sobrevive devido à lógica do 'Imaginário'. Não sucumbe ao seu próprio poder de negação porque, transformado o seu corpo e o seu consciente em instrumentos de uma razão invisível, descobre que é ela que fundamenta a existência humana.

Evidentemente que tal imaginário proposto por Sade, se relaciona com a pornografia. A pornografia, na verdade, revela um conhecimento de aprendizado com a possibilidade de transformação do indivíduo diante da sociedade. Além disso, o imaginário pornográfico constitui uma das bases psicológicas que estão de acordo com a ideologia, sua matéria-prima de ordem inconsciente/desejante e lançada para o nível dos códigos da própria consciência. Nesse sentido, tais elementos pressupõem uma origem preliminar em relação às carências e às demandas humanas permanentes, ou seja, o medo da morte, o desejo, os sentimentos de angústia e de solidão arraigadas profundamente nos códigos de representação das estruturas psíquicas de cada indivíduo. Outro aspecto a ser levado em consideração é que, a base que instaura a pornografia, é o fascínio por meio da aventura transgressora. Assim, quanto mais se impõem limites aos desejos humanos, mais eles se ressaltam e configuram a versão vertiginosa de um transbordamento do prazer e da ultrapassagem de todos os limites, que seriam, em outras palavras, os interditos impostos por cada cultura.

Deve-se compreender, tendo como base os princípios que norteiam o pensamento sadeano, que a imaginação pornográfica é sempre alimentada por meio do imperativo erótico, em que as ações sexuais tornam-se uma espécie de intercâmbio entre as relações estabelecidas.

Vale, portanto, a pergunta: Por que a literatura de Sade desconcerta o leitor? De acordo com Bataille (2004), devido a intensidade trágica, uma vez que o excesso demarca o limite onde o pensável não é mais pensável, mas excedido, onde todo julgamento se frustra, e se perde na indiferença. Nesse movimento o sujeito esvanece numa intolerável angústia que o faz gritar. Isso ocorre, devido a forças excessivas que culminam com o desconhecido e que colocam o sujeito diante do impossível, do confronto, do conflito consigo mesmo. Mais do que isso, sua linguagem instaura o prazer e a dor, o sadismo, o masoquismo, a crueldade, o erotismo que, podemos dizer, é aquilo que de mais humano que nos permeia.

Referências:
BATAILLE, Georges. (2004), O erotismo. São Paulo: Arx.
DELEUZE, Gilles. (2001) Presentación de Sacher-Masoch. Buenos Aires.
MORAES, Eliane Robert. (2002), O corpo impossível. Ed. Iluminuras.
__________. (1994), Sade: a felicidade libertina. Rio de Janeiro: Imago ed.

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