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debate público
O Inimigo Mora ao Lado

Livro de ensaios trata da violência no cotidiano. Segundo o autor, celular no ouvido é uma arma na cabeça, mirando a nossa autonomia


Quais os motivos dos terroristas? Por que se jogam nesses ataques? Temos alguma culpa nesse processo? Quais são as razões de existir de um grupo como o Primeiro Comando da Capital? Que tipo de pressão sofrem os policiais e ninguém percebe?


Em Os Sentidos da Violência - TV, Celular e Novas Mídias, o professor Christian Godoi trata de um inimigo sutil — um lobo em pele de cordeiro. O autor examina os vários tipos de violência para tratar da variedade que considera mais nociva: a violência simbólica. 'Esta violência é aquela que a gente vivencia, pratica constantemente e é vitimado por ela o tempo todo, mas não percebe, porque ela não machuca', diz. Para abordar o tema, abrange do terrorismo ao rap, dos policiais à mídia, dos celulares ao Orkut.

Na visão de Godoi, a violência simbólica é recíproca e frequente. Tanto para terroristas — que são excluídos da sociedade e por isso reagem — quanto para policiais que só devem se mostrar como irretocáveis cumpridores da lei e nunca como gente normal que tem medo e que falha. Esse tipo de violência atinge ainda o indivíduo que pensa que para se encaixar na sociedade precisa ter esse ou aquele aparelho eletrônico e também o que compra um celular e não consegue se desligar do trabalho.

Mestrando da Universidade de São Paulo (USP) e ex-punk, Godoi diz que não lê e-mails nos fins de semana e não atende o celular a qualquer hora. Olhar para essas questões e procurar entender a violência que há nelas é o seu método de trabalho.

A mensagem inscrita nos conflitos

'Antigamente eu andava com a moçada e sempre tinha briga, aquilo de querer ser mais do que outro. Isso sempre me interessou', conta Godoi. Imagine-se a cena: rapazes de moicano e jaquetas de couro se digladiavam nas proximidades do Canal 7, em Santos. Para um dos integrantes do grupo, o próprio Godoi, o que importava no conflito era o contexto que o gerava. 'Na época eu não tinha ainda a sensibilidade para perceber, para tratar da violência simbólica, que é a que hoje me interessa mais'.


No início do mestrado na USP, Christian Godoi resolveu tratar do terrorismo, tema dominante entre 2001 e 2004 (em 11 de setembro de 2001, ocorreram os ataques ao World Trade Center e ao Pentágono, nos Estados Unidos, com cerca de três mil mortos; em 11 de março de 2004, houve o atentado à bomba na rede ferroviária de Madrid, em que morreram 191 pessoas e mais de 1 700 ficaram feridas). Foi em Jacques Lacan (psicanalista francês 1901—1981) que ele descobriu dois conceitos-chave para os assuntos que queria estudar: a ideia de sujeito e de objeto, duas palavras que parecem mais complicadas do que de fato são. Sujeito é a situação de alguém que tem autonomia, que decide todos os aspectos de sua vida. Objeto, ou objetivado, é o contrário: quem se deixa levar por ideias que não as suas.

A partir daí o autor começou a fazer uma série de perguntas incômodas para a sociedade contemporânea: quais os motivos dos terroristas? Por que se jogam nesses ataques? Temos alguma culpa nesse processo? O Primeiro Comando da Capital, o PCC, quais são as razões de existir? Que tipo de pressão sofrem os policiais e ninguém percebe? Com a teoria na mão, a análise abrange, no livro — o rap do Racionais MCs o filme Tropa de Elite, a invasão da reitoria da USP (protesto dos alunos em maio de 2007) e as manifestações dos sem-terra. Godoi propõe outro jeito de pensar tudo isso.

O papel que esmaga, violenta

Para entender a violência simbólica, há três textos no livro que são essenciais. Em um artigo, Godoi analisa a imagem do policial na mídia; em outros dois, o clipe Vida Loka II, do Racionais MCs, e os celulares. Os três são complementares porque, na verdade, tratam dos meios que a gente usa para se incluir num grupo, numa sociedade.

No primeiro texto, a ideia que importa é a dos papéis. Como se tudo se tratasse de uma peça de teatro gigantesca, nós todos cumprimos papéis. O que quer dizer que nós assumimos uma posição — por exemplo, de pai de família, de funcionário de loja — e sabemos o que se espera que a gente faça nessa posição. Desse jeito: se espera de um jornalista que esteja bem informado sobre todos os assuntos correndo na mídia. O jornalista, então, se esfalfa entre vinte jornais para cumprir seu papel. De um vereador, espera-se que esteja sempre disponível para ouvir e sempre atento aos problemas. Como se vê, são vários os papéis que cumprimos. A violência ocorre quando um desses papéis exige todo nosso tempo, se torna nosso único meio de expressão. O personagem daquela peça de teatro descomunal assume o controle, e a gente só observa de longe.

Para Godoi, é mais ou menos o que ocorre com os policiais. O que a mídia e o que nós fazemos com os policiais, na verdade. O policial nunca se mostra como é, 'com filhos, esposa e mãe', escreve o professor, e, principalmente, 'com esperanças num sucesso que não virá'. A polícia, em qualquer situação, é tratada como o lado negro, até quando faz o que lhe pagam para fazer. Segundo Godoi, xingam os soldados 'no rock, no rap, no funk, no punk. Em jogos de futebol, aparece como um retrato do mal'. E em qualquer entrevista, o assunto questionado e o depoimento não fogem do estrito relato do que aconteceu. O papel dessas pessoas é serem policiais, elas não teriam nenhum outro modo de expressão. A obrigação é opressiva: 'ele esquece sua própria existência, passa a se enxergar enquanto corporação', diz Godoi.

Enquanto isso, os criminosos são nossos heróis. Em Notícias de uma Guerra Particular, de João Moreira Salles, documentarista que também produziu Entreatos e Santiago, Godoi mostra esse cenário: de um lado, o policial falando apenas da sua atividade; do outro, o bandido, apresentado com glamour e desenvoltura. No filme, um integrante do Batalhão de Operações Especiais, o Bope, afirma: 'A família nem pergunta mais como foi o dia' — o que, para Godoi, serve de resumo para a solidão, o dilema policial. Tropa de Elite, de José Padilha, explora os temas que Notícias deixa de fora: a vida íntima do capitão, suas contradições, a pressão sobre o comando.

Será que essa pressão, essa violência individualidade pode ser uma das causas de episódios como o do Morro da Providência, em que soldados do Exército entregaram jovens a um grupo de traficantes inimigo, o que significa dizer, para a morte certa? Pode ser causa do descontrole que levou um grupo de policiais a atirar violentamente contra um carro e assassinar o menino José Roberto Amaral, de três anos, também no Rio de Janeiro? Segundo Godoi: 'Não é justificativa para esses crimes, mas é uma explicação'.


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