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interpretação
Revolucionários Domados



Clube da Luta


Clube da Luta
Clube da Luta é de 1999. O final do filme tem uma quase irrisória diferença em relação ao final do livro de Chuck Pallanuk, que modifica a sua mensagem. A história é essa: um executivo tem problemas de insônia e certa decepção/depressão causada pela vida que tem. Ele passa a ir a reuniões de grupos de alcóolicos e doentes terminais por sugestão do médico; sente-se calmo, compreendido sem dizer nada, genuinamente ouvido pelos outros. Mas ao conhecer alguém que faz o mesmo que ele — participa de reuniões pelo prazer ou sensação que dão — a anestesia não funciona mais, ele volta a não dormir. Esse alguém é Marla Singer, uma suicida e viciada em drogas. Pouco depois, ele conhece Tyler Durden, homem de filosofia extremista que cria com ele um modo de desestressar, de se livrar do peso da modernidade. Esse modo é o combate físico até a desistência, é o clube da luta.

As ideias de Tyler Durden são o material de maior interesse. São uma crítica ao status quo, ao consumismo, a uma vida padronizada e sem intensidade de experiências. Quando é dito no filme que o personagem não é o que veste, não é o que compra, está se procurando uma personalidade individual além do estilo; quando se arruína o próprio corpo em batalhas, se está procurando uma personalidade além da aparência e uma vida além da autopreservação. A tese central é: se arrisque, ou a vida não vale a pena. A segunda parte das ideias de Tyler (divido em duas partes porque esta segunda não é um desenvolvimento lógico, necessário, da primeira) é mais extremista: propõe abandonarmos totalmente a tecnologia, vivermos no estado natural, de luta pela vida, do qual partirmos. Essa segunda parte tem similitudes com a corrente de pensamento chamada de anarcoprimitivismo, com verbete na Wikipedia.

Continuando. Pouco a pouco, o clube da luta ganha cada vez mais fama, e outros, seguindo as mesmas regras e ligados a Tyler Durden, são criados por todo EUA. Durden então cria o Projeto Caos, um movimento pensado de modificação da sociedade. Enquanto o projeto se desenvolve e atrai afiliados, acontece um relacionamento entre Tyler e Marla; fazem sexo e ela é, em seguida, ignorada totalmente por Tyler. Perto do fim, o projeto máximo do Caos é posto em prática: a destruição das informações bancárias de todo país, zerando o crédito e a economia, restabelecendo um estado primitivo. A relação de Tyler com o protagonista se torna esmaecida, Tyler nunca é visto por ninguém e como uma sombra está em todo lugar. Na perseguição final dele, para impedir que consiga seu intento, descobrimos o segredo: Tyler Durden e o protagonista são a mesma pessoa.

Ele é como uma personalidade recalcada do protagonista. Enquanto ele dormia, Tyler agia. As mudanças de comportamento em relação à Marla se deviam a isso. E, da mesma forma, somos levados a pensar que todas as suas atividades, sua crítica à sociedade, seu projeto de anarquia primitiva, tudo isso era devido à loucura, tudo devido a uma psicose, nada precisa ser levado a sério por ninguém. Marla e Tyler (o protagonista) se dão as mãos; aí a solução, o happy ending romântico, a sensação de alívio.

No livro, a sequência final se dá, presumivelmente, em um hospício, onde vários membros dos clubes da luta e do Projeto Caos falam com Tyler Durden internado, contando sobre os avanços do projeto, preparando uma fuga. O filme sugere que está tudo terminado, que, mal ou bem, as coisas retornarão ao seu normal. O livro indica que o movimento cresce sem um líder, ideia corroendo o senso comum; e indica que esse antigo líder não nega o que criou. Talvez mesmo o compreenda. Na adaptação, ele passa de um doente ludibriado? Não. Tudo leva a crer que a anomalia na sociedade se devia à sua doença. Acabada a doença, é claro, a anomalia deixa de existir, a crítica deixa de existir e ele se torna normal e capaz de amar. O happy ending romântico: singelamente, eles se dão as mãos.

Outras semelhanças com Caligari podem levar a reflexões que não estarão nesse texto. Por exemplo: tanto Caligari quanto Tyler dominam sonâmbulos, e/ou utilizam-se de outros para seus fins, como ferramentas. No entanto, o primeiro devia servir de crítica à autoridade que enlouquece e abusa de seu poder; e o segundo deva ser a imagem da absoluta liberdade. As comparações levam a pensar: a imposição de controle quanto a defesa de liberdade podem usar dos mesmos instrumentos? E se usam, qual é de fato a diferença entre eles?


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