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Artes
O lado B do aquário

O filme é de uma sensibilidade incrível e com belas referências à literatura. 'Todas as famílias felizes são iguais. Mas cada família triste é única'. A menção do trecho do livro Anna Karenina, de Leon Tolstoi, é o ponto de encontro entre o espectador e a nova senhora Michel.



Há razão quem diz o quão delicioso é assistir a um filme com nenhum conhecimento prévio, ou o mínimo possível. Tive uma feliz surpresa ao ver 'O Porco Espinho' (La Hérisson, 2009), da cineasta francesa Mona Achache. O filme é uma marcante adaptação de um livro chamado 'A Elegância do Ouriço', de Muriel Barbery, que já estou louca para devorar. O título fílmico sustenta um bom papel sintético e metafórico. A sabência, a priori, me arrancaria o incrível sabor de surpresa. Com um adendo; isso funciona com bons filmes. A mudança de impressões no decorrer da película e a possibilidade de adentrar no sensível universo narrado são apaixonantes, tanto quanto cada personagem que irei mencionar.

Paloma é uma inteligente criança com dificuldade de socialização inútil. Pretende se matar no seu 12° aniversário, sem um pingo de medo. Atrás das lentes de uma Super 8, ela se revela deslocada e sozinha. Com um olhar inocente, porém reflexivo, ela ultrapassa a observação superficial e revela recortes valorosos da senhora Michel, personagem aparentemente simples, mas muito interessante. A pequena encontra, sem saber, razões para permanecer viva.

O filme é de uma sensibilidade incrível e com belas referências à literatura. 'Todas as famílias felizes são iguais. Mas cada família triste é única'. A menção do trecho do livro Anna Karenina, de Leon Tolstoi, é o ponto de encontro entre o espectador e essa nova senhora Michel. É também a deixa para a descoberta de si mesma. Dos seus valores e da sua possibilidade de ser feliz.

De início, a aparência carrancuda da mulher e a expressão corporal pesada me transmitiu certa antipatia. Na medida em que estranhos tocam seu coração, os traços suavizam, ela fica mais leve, bonita. A desconfiança inicial a torna mais humana. A decisão titubeante demonstra que ela se permite. O senhor Kiroto é o responsável por desabrochá-la. Assim como a menina Paloma, ele vê a senhora Michel, agora Rennè, como um ser humano significante, elegante, forte e culto.

A criança conta os dias para se matar. Artística, ela desenha um quadro por dia na parede de seu quarto apontando a chegada do seu aniversário. Ela diz que o aquário não é para ela. Eu digo, Rennè mantinha um esconderijo perceptível à você. E ao Kiroto. Em determinado momento ela estava preparada. Você conta os dias desenhando belos quadrinhos na parede do seu quarto. E passa o tempo filmando as pessoas ao seu redor. E ainda, aprendendo sobre literatura, falando de cultura chinesa. Essa singela amizade transformou seu pensamento. Você não quer se matar, você quer se encontrar. Porque quando morrer, quer estar preparada para isso.

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