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interpretação
O Satã miltoniano nas Minas Gerais dos setecentos

A Ode a Milton, escrita pelo poeta Cláudio Manuel da Costa, mostra peculiares ecos da poesia inglesa nas Minas Gerais do século XVIII.

Cláudio Manuel da Costa (1729-1789)
A denúncia da conspiração dos inconfidentes mineiros contra a Coroa portuguesa, em 1789, resultou em prisão, degredo e morte de ilustrados propagadores dos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Em uma época em que a censura agia preventivamente no Brasil através da ausência de tipografias, as luzes eram cultivadas em sociedades secretas veladas sob o invólucro de agremiações literárias. A descoberta de um altar maçônico oculto na residência de Antônio Vieira da Cruz, localizado no Alto da Cruz em Ouro Preto e datado aproximadamente de 1792, é evidência disso.

A religião cultivava o claro-escuro, no qual a luz vinha da própria religião, e perseguia o iluminismo, cuja luz vinha do conhecimento. Isso porque o conhecimento na religião cristã era miticamente associado a Satã e à queda do ser humano. Essa relação entre o mal e o conhecimento estaria representada no mito de Adão e Eva, quando a Serpente oferece à mulher o fruto da Árvore do Bem e do Mal. Com isso, o homem, que vivia em estado paradisíaco, é expulso do Jardim do Éden e iniciam-se seus sofrimentos. O saber seria, portanto, uma poderosa arma do Mal para seduzir o ser humano e dominá-lo. Satã, anjo exilado do Empíreo, procura, dessa maneira, arrastar consigo a humanidade ao exílio.

As bibliotecas dos inconfidentes, juntamente com seus outros bens, foram confiscadas, mas na obra de Eduardo Frieiro cujo sugestivo título é O diabo na livraria do cônego, podemos ver os relatórios da Devassa onde constam os títulos de várias das obras lidas por eles. Entre as obras pertencentes ao cônego Luís Vieira da Silva, que dá nome ao livro de Frieiro, está um exemplar traduzido para o francês do Paraíso perdido, do poeta inglês John Milton, no qual vemos a narrativa da queda de Satã mais significativa para o imaginário ocidental.

O Satã miltoniano não representa o mal perverso, mas o mal melancólico e angustiado pelo conhecimento. As gravuras do pintor e ilustrador Gustave Doré (1832-1883) baseadas no poema épico mostram esse Satã angustiado e reflexivo sobre os penhascos, considerado pelos anjos como fácil de ser localizado por destoar da paz do Éden.

Gustave Doré (1832-1883)


Essa imagem de Satã torna inevitável recordarmos o pastor Fido, que protagoniza vários sonetos das Obras de Cláudio Manuel, de 1768. No Soneto XXII, o pastor Fido se encontra sob um 'álamo sombrio' e 'sentado sobre o tosco de um penedo' a chorar sua desventura. De acordo com o pesquisador Sérgio Alcides, o pastor reproduz, nesse soneto, a imagem alegórica da Melancolia mais comum desde a Idade Média, sentado sozinho sobre uma pedra e rodeado de símbolos e de alegorias. O pastor Fido é citado explicitamente em 7 sonetos, e mais uma vez em uma écloga. Nesta, tomamos conhecimento do suicídio de pastor ao se lançar do alto de um rochedo, manifestação máxima da melancolia.

A imagem em que o pastor Fido é apresentado no Soneto XXII nos remete à própria representação Satã miltoniano que verificamos na epopeia, enquanto ambas ecoam a alegoria da Melancolia do italiano Cesare Ripa (1555-1622).


Essa epopeia impressionou o poeta mineiro Cláudio Manuel da Costa a ponto de lhe inspirar a escrita de uma Ode a Milton. Essa Ode está em um conjunto de poemas que a pesquisadora Melânia Silva de Aguiar denomina Poesias Manuscritas, o qual, segundo a estudiosa, pode ser situado na terceira fase de sua poesia, que engloba os escritos após 1768, pelo assunto geralmente circunstancial e pelo estilo claro de escrita. É curioso pensarmos em como o poeta inglês ecoou nas remotas Minas Gerais do século XVIII, o que atesta a erudição do poeta mineiro. O próprio Cláudio Manuel, em sua Ode, manifesta essa surpresa diante da distância cruzada por esse texto literário, dirigindo-se a seu próprio autor: 'desde o gelado Pólo / Teu nome vencedor a nós se estende'. Vejamos o trecho inicial do poema:

Contigo me entretenho,
Contigo passo a noite, e passo o dia,
E cheia a fantesia
Das imagens, ó Milton, do teu canto,
Contigo desço às Regiões do espanto,
Contigo me remonto à imensa altura,
Que banha de seu rosto a Cinosura.

Cesare Ripa (1555-1622)
Lúcifer, em ilustração de Gustave Doré para o Paraíso perdido de Milton.


O tema do exílio, constante na poesia de Cláudio Manuel, é ovidiano, mas também bíblico. As maiores representações do exílio no mito cristão são, como vimos, a queda de Adão e Eva, expulsos do paraíso, e a queda anterior de Satã, expulso do Empíreo e lançado às trevas do Orco. A esse respeito, vemos uma nota ao Prólogo do épico Vila Rica em que, referindo-se à sua viagem pelos sertões das Minas, na qual acompanhou o então Governador das Minas Gerais, Cláudio cita um verso do Paraíso perdido alusivo à jornada de Satã através do Caos, indo do Orco à Terra: 'Viagem dilatada e aspérrima'. Assim, o poeta mineiro estabelece uma comparação entre as dificuldades vivenciadas no caminho entre Minas e São Paulo e o árduo percurso enfrentado por Satã em direção à Terra, sendo os sertões incultos relacionados às trevas do Orco e o poeta equiparado ao Satã melancólico. Essa jornada de Satã é, inclusive, citada na referida Ode:



Voa do Estígio Lago,
Ó Espírito rebelde: um frio gelo
Me deixa apenas vê-lo!
Tenta a Equinocial, vaga os abismos!
Que horror! Entre funestos paroxismos,
Talvez chego a temer que o Monstro possa
Cantar os loiros da tragédia nossa.

Há, ainda, a relação entre Satã e a mineração, condenada por Cláudio em vários de seus poemas por representar a ambição humana, contrária à simplicidade almejada pelos árcades. De acordo com o próprio Paraíso perdido, Satã é quem escondeu na terra os tesouros, e por sua sugestão é que os homens rasgaram as entranhas da terra em busca de riquezas. Há uma evidente relação entre essa concepção e a moral da 'Fábula do Ribeirão do Carmo', do poeta mineiro, em que as minas de ouro são comparadas ao Báratro profundo.

Para Claudio Manuel da Costa, homem barroco melancólico como o Satã miltoniano, o Paraíso ou o bem perdido não mais devia ser lamentado. Isso porque, para o poeta, são a poesia e a fantasia o verdadeiro Éden:

Se Milton pela mão nos leva e guia,
Cesse do bem perdido a fatal ânsia,
Esta é de Éden a milagrosa estância.

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