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interpretação
A poesia do cotidiano de Ronaldo Cagiano

Cagiano não disfarça a influência recebida de poetas imensamente mineiros e universais como Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). 'Esse lugar em que me (des)habito/ fronteiriço do hospício e do calabouço/ é uma Itabira pesada demais,/ a pedra no caminho/ de josés sem agora'.

I
O sol nas feridas é um inventário lírico da trajetória de Ronaldo Cagiano (1961), cobrindo um itinerário poético que começou em 1989, com a publicação de Palavra engajada, depois de sua saída da pequena Cataguases – 'para não ficar menor que ela' –, passando por uma longa vivência em Brasília, até a sua recente transferência para São Paulo – 'a metrópole apavorada e catatônica' – e viagens realizadas nos últimos anos a Portugal, Irã, Espanha e Argentina.

Em 'Autorretrato', as influências sofridas pelo poeta nesse trajeto são nítidas: desde os versos gonzagueanos – 'Não tive ouro nem gado/ muito menos fazenda ou legado,/ mas sinto-me mal e compulsório,/ nesse rebanho catatônico,/ nesse estábulo funcional/ em que me lançou o destino' –, passando por reminiscências drummondianas – 'Esse lugar em que me (des)habito/ fronteiriço do hospício e do calabouço/ é uma Itabira pesada demais,/ a pedra no caminho/ de josés sem agora' –, ou guimarãesroseana – '(...) reivindico a terceira margem/ esse rio que nunca dorme dentro de nós' –, até uma homenagem ao poeta argentino Juan Gelman.

Na poesia de Cagiano se percebe uma tensão entre o lirismo do autor e a realidade do advogado funcionário de uma instituição bancária que se manifesta em imagens obsessivas, como se constata em 'Dia sem nome', em que o poeta/burocrata reproduz o dia a dia em que vive: 'Na estação de trabalho/ os colegas cumprimentam-se/ com a mesma frieza burocrática/ de todos os dias'. (...) Ah, como dói vê-los tão mecânicos/ tão protocolares/ tão passivos e sem ênfase'.

É o que se vê explicitamente em 'Rotina bancária': 'Cafetões da vida bovina/ voyeurs do coito titânico e animal/ da busca de resultados/ do aumento da produtividade'. E mais ainda em 'Dia sem nome' em que consegue extrair poesia da linguagem profissional – que até assustaria Mikhail Bakhtin (1895-1975), se o filólogo russo percebesse Português – que se ouve no dia a dia das reuniões em empresas privadas e estatais, eivada de expressões inglesas que poderiam muito bem ser substituídas por palavras do vocabulário lusófono, mas que ali estão apenas para dar àqueles que as pronunciam um pretenso conhecimento: 'Precisamos estar focados/ Ser pró-ativos/ verificar a expertise/ startar novas ideias/ evitar retrabalho/ eliminar os gaps e gargalos/ racionalizar os procedimentos/ diminuir custos/ otimizar resultados/ aumentar a produtividade/ o envolvimento do grupo é fundamental/ a coesão da equipe é salutar para a performance/ o feedback é indispensável'.

II
Como todo grande poeta, Cagiano se volta também para o regional, para a sua infância. Nascido no interior de Minas Gerais, na mítica Cataguases, de Rosário Fusco (1910-1977) e os 'verdes' e de Humberto Mauro (1897-1983), não disfarça a influência recebida de poetas imensamente mineiros e universais como Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) ou menos divulgados como Donizete Galvão (1954), a quem homenageia reproduzindo seus versos na epígrafe de 'Ressonâncias': 'Nunca sai dessa Minas/ que não termina'. Nesse poema, é de Cataguases que lembra quando diz que 'ainda ecoam/ na exilada memória/ os dobrados da Banda Municipal/ e a Maria Fumaça irrompendo/ com sua rouquidão metálica/ no breu imenso da noite'.

Tendo vivido boa parte de sua trajetória profissional em Brasília, onde se formou em Direito, o poeta também carrega no peito o cotidiano da 'cidade sem esquinas' e traduz em versos a evocação mirífica de suas vivências no Planalto brasileiro, onde em meio à corrupção deslavada dos mais afortunados há ainda quem more em casas de chão batido e fossas sépticas a poucos quilômetros do Palácio da Alvorada: 'seus botecos suas noites/ sua música seus automóveis/ seus escândalos suas feridas/ seu festim de esgotos no Paranoá'.

Nos poemas da maturidade, o poeta mostra a sua face de globetrotter, suas impressões de viagens. Em 'Voo 7264', fala da Paris sartreana e de outros tantos intelectuais para concluir que a Cidade-Luz pode lhe ensinar mais que todas as religiões. Em 'Postal', congela na imaginação uma Buenos Aires de cartão-postal: 'Da calçada do Café Tortoni/ ouço um tango a espantar-me/ o tédio e a solidão: ele se irradia auspicioso/ pela Avenida de Mayo/ indiferente à sinfonia/ repetitiva dos semáforos,/ afrontando a anarquia das buzinas/ e as indelicadezas do trânsito'.

III
Outro tema recorrente na poesia madura de Cagiano é o de sua (má) relação com a religião – ou a ausência desta em sua vida, substituída pelo culto à literatura e aos seus nomes universais. É o que se vê em 'Ad nauseam': 'Quando alguém vem falar de Deus/ dou-lhe as costas/ e abro um livro. Não creio em nada'. Ou ainda em: 'Onde estava Deus/, quando Hitler avançou/ com seus coturnos, suas bombas/ seus campos de concentração/ sobre toda a humanidade?' Essa irreligiosidade se extravasa quando avança contra o 'catolicismo pedófilo' e o 'protestantismo mercenário', porque 'essa fé não beatifica,/ senão bestifica e aliena/ porque cevada no vazio/ na falsa panaceia/ que tropeça na falácia/ que trapaça na audácia/ de um deus onisciente e autoritário/ mas duvidoso/ e impotente'.

Ainda que o leitor não seja cético nem agnóstico como o poeta, não há como deixar de se identificar com a sua agonia diante de um mundo sem saída. Feita de desespero, a poesia de Cagiano se constrói com os tijolos e a argamassa de um cotidiano profundamente brasileiro e suas tantas feridas expostas não só ao sol, mas às chuvas tropicais que, periodicamente, derrubam morros, casas e edifícios mal construídos, em meio à indiferença de gatunos travestidos de autoridades. Essa agonia também se manifesta mesmo quando o poeta se põe a reproduzir a realidade de outros países, já que o faz sempre com um olhar verde-amarelo. Por isso, pode-se dizer sem medo de errar que Cagiano está entre os melhores poetas do Brasil deste começo de século XXI.

IV
Ronaldo Cagiano é escritor, ensaísta e crítico literário. Viveu em Brasília de 1979 até recentemente, quando se transferiu definitivamente para São Paulo. Publica em diversos jornais e revistas do País e do exterior, dentre os quais Hoje em Dia, de Belo Horizonte, Jornal de Brasília, Jornal Opção, de Goiânia, Correio Braziliense e Revista Cult, de São Paulo.

Obteve o primeiro lugar no concurso Bolsa Brasília de Produção Literária 2001, com o livro de contos Dezembro indigesto. Organizou as coletâneas Antologia do conto brasiliense (Projecto Editorial, Brasília, 2001), Poetas Mineiros em Brasília (Varanda Edições, Brasília, 2001) e Todas as Gerações - O Conto Brasiliense Contemporâneo (LGE Editora, Brasília, 2006).

Publicou ainda Colheita amarga & outras angústias (poesias, São Paulo, 1990), Exílio (poesia, São Paulo, 1990), Palavracesa (poesia, Brasília, 1994), O prazer da leitura, em parceria com Jacinto Guerra (contos juvenis, Brasília, 1997), Prismas – literatura e outros temas (crítica literária, Brasília, 1997), Canção dentro da noite (poesia, Brasília, 1999), Espelho, espelho meu, em parceria com Joilson Portocalvo (infanto-juvenil, Brasília, 2000), Dezembro indigesto (contos, Brasília, 2001), Concerto para arranha-céus (contos, LGE Editora, Brasília, 2005), e Dicionário de pequenas solidões (contos, Língua Geral, Rio de Janeiro, 2006).
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O SOL NAS FERIDAS, de Ronaldo Cagiano. São Paulo: Dobra Editorial, 2011, 152 págs.

Doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003)
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