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Artes
Entorpecendo a alma

Distante dos contos de fada, 'A Bela Adormecida' (Sleeping Beauty, 2011) me seduz pelo estranhamento. Uma narrativa seca, lenta e silenciosa leva ao universo da bela e perdida Lucy. Uma jovem que entra e sai de cena sem perceber a que veio. E não desfaço do filme por esse comentário, pelo contrário, gosto muito. A personagem vive em constante confusão e indiferença com a própria vida, no mínimo curiosa.

Com uma força incrível de trabalho, a jovem universitária se submete à diversos empregos desgostosos em busca da independência. Num deles, ela recebe muito bem. Com a ajuda de remédios, adormece à mercê de clientes em busca de desejos sexuais, ou não, mas os satisfaz sem ao menos ter ideia do que acontece no quarto. Talvez, uma situação mais fácil de lidar do que como uma prostituta convencional.

Enquanto só Lucy está em cena, com planos demorados de situações corriqueiras, a nudez permissível é inocente, casual. Acontece sem constrangimentos. O que mais abate é a nudez da sua alma. Ela não está em um momento de busca além da sua própria sobrevivência. A diretora Júlia Leigh trabalha uma jovem sem planos ou sonhos. Sozinha, perdida, ela usa o sexo e indiferença como armas para a busca de si mesma, em vão.

Nos singelos e fortes momentos da sua vida, recortes que se dividem em poucos lugares físicos, as representações acontecem por meio da fotografia. Por diversas vezes branca, estourada, representa momentos de lucidez, de conhecimento, e até de inocência. A brancura da sua pele se enlaça ao cenário. De volta ao mundo de cores mais sombrias, está a casa. E o quarto adormecido, com um simpático trabalho de arte que a faz parecer uma pintura. Algo inalcançável e cândido.

A atmosfera cotidiana é mais pesada que ela pode suportar. A única noção de sentimentos a ser repassada é através de uma amizade franca e difícil com um amigo. Mas, com um belíssimo final, ela se expressa com sinceridade absoluta. De certa maneira, liberta de si a dor que estava presa à alma.

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