Receba a revista por e-mailSiga-nos no TwitterAssine o RSS
publicidade
interpretação
Melancolia

'A impressão final é a de um lamento amargurado por um planeta de quem ninguém sentirá falta'


'Melancolia é um belo ensaio sobre o fim da vida, a solidão da morte e de todos os seres humanos e a necessidade de se aceitar o vazio em vida como única forma de escapar ao desespero.'


Melancolia é sem dúvida o filme mais lírico de Lars Von Trier e talvez também sua obra mais palatável. Distante do desconforto moral de Dançando no Escuro, da experimentação estética de Dogville e da absoluta violência de Anticristo, Von Trier constrói um filme de beleza plástica admirável onde conceitos familiares a sua obra se articulam em diversas camadas de interpretação.

No plano narrativo temos Justine (Kirsten Dunst) uma mulher tomada pela depressão e sua irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) que tenta desesperadamente inseri-la no mundo das convenções sociais. No entanto, a perspectiva de fim do mundo anunciada pela possível colisão do gigantesco planeta Melancolia com a Terra inverte os papéis e a morbidez de Justine parece muito mais preparada para encarar a morte do que a funcionalidade de Claire. A crítica da racionalidade, da ciência e da mentalidade iluminista é um dos aspectos mais recorrentes na obra do cineasta e aqui ela aparece não só na ridicularização do marido de Claire, um especialista em astronomia, como no retrato da total ineficiência dessa posição frente ao vazio da morte.


'Ainda que seja um filme em que o diretor pareça fazer concessões artísticas é, segundo o próprio, sua obra mais pessoal e a que mais se afasta de sua persona violenta e polêmica.'
A partir dessa premissa se desenha a camada mais conceitual do filme: a destruição da Terra coloca os personagens em contato com o completo vazio, não só de suas mortes, mas da possível destruição de toda e qualquer vida existente no universo e frente à consciência da impossibilidade de escape aflora a futilidade da existência. Claire ainda tenta tornar o momento da morte agradável, mas é veementemente repreendida por Justine que sabe que nada do que ocorra em vida pode anular a solidão essencial do momento em que se deixa de existir.

Justine, analogamente à personagem interpretada por Gainsbourg em Anticristo, se coloca em um lugar de sabedoria, posição evidenciada inclusive pela direção de arte e pela fotografia que utilizam muito bem a própria aparência da atriz e a colocam sempre como um ponto luminoso dentro do quadro. Diferente da posição arrogante da ciência essas personagens sentem o fluxo do mundo (e da própria morte) em si mesmas, em sua depressão Justine vem experimentando o vazio há tempo demais para temê-lo, a melancolia em sua irracionalidade essencial é para Lars Von Trier (e diversas tradições filosóficas) o lugar da sabedoria e da consciência, assim como Melancolia, o planeta, é aquele que vem trazer a percepção de nossa pequenez e insignificância.

Dessa forma Melancolia é um belo ensaio sobre o fim da vida, a solidão da morte e de todos os seres humanos e a necessidade de se aceitar o vazio em vida como única forma de escapar ao desespero. Ainda que seja um filme em que o diretor pareça fazer concessões artísticas é, segundo o próprio, sua obra mais pessoal e a que mais se afasta de sua persona violenta e polêmica. Sem dúvida há uma carga de violência no filme, mas ela se contém na afirmação de Justine de que a vida na Terra é essencialmente má, mas ainda assim, a impressão final é a de um lamento amargurado por um planeta de quem ninguém sentirá falta.

Comentários
Expediente | Envie seu Texto | Coloque um banner em seu blog