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opinião
Escrita sem tréguas

Embora a incompletude seja essencial ao ser humano, há uma diferença entre os que têm ciência dessa falta e os que insistem em ocultá-la de si mesmos


'Esta síntese (ao lado) de um dos contos de Então você quer ser escritor?, de Miguel Sanches Neto, sintetiza um dos questionamentos centrais do livro: o lugar da falta na existência'
Último Mendes, poeta que mora em Marechal Cândido Rondon, se auto-intitula 'o morto da literatura brasileira'. Aposentado, isolado numa casa que (não por acaso) permanece inacabada, autor de livros que ninguém lê, nem por isso deixa de escrever; pelo contrário: é um autor prolífico. Escreve tanto que Frederica, sua jovem esposa − responsável por preparar os livros artesanalmente, digitando os poemas e grampeando as folhas impressas em casa − não dá conta de publicar todos os originais, que se acumulam em dezenas de pastas coloridas.

Houve um tempo em que Último Mendes tentou emplacar como autor: publicava livros em grandes tiragens, que eram invariavelmente ignorados pelos críticos, pelos jornais, pelos outros poetas. Agora, o que sai de sua casa são cinquenta exemplares, amadoristicamente editados e encaminhados a umas poucas bibliotecas. Por que, apesar de tudo, continua a escrever? Porque precisa disso. Sua obra é composta por incontáveis poemas que, no entanto, jamais são concluídos − assim como a casa em que habita. O que ele procura é o poema definitivo, que reúna em um único dístico todos os livros − tanto os já escritos quanto os que um dia possam vir a sê-lo.

Quem descobre Último Mendes é Marlus − que, porque gostava de ler, tornou-se um organizador de antologias. Ele quer organizar um volume com os poemas de Mendes − mas, quando chega ao poeta, o que encontra é um autor emudecido: a busca do impossível poema o levou ao silêncio, em que procura Deus. De fato, Marlus jamais vê a face do misterioso autor: conhece apenas sua esposa. O antologista, que viajara em vão, encontra uma mulher que dedica a vida a editar livros nunca lidos. É sintomático que acabem viajando ao que Frederica chama de 'princípio do mundo': um galpão, na cidade de Pato Bragado, em que um escultor dá aos troncos de árvores submersas as formas de pênis que penetram vaginas. 'Todo mundo gosta de ver essas coisas', justifica-se o escultor: 'Pornografia é o que vende'. O escultor é o oposto do escritor: se este cria para ninguém, aquele produz para todo o mundo. Porque são comercialmente interessantes, as esculturas 'servem' para alguma coisa, afirmaria a lógica do capitalismo − ao contrário dos escritos de Último Mendes, condenados ao esquecimento.

Esta brevíssima síntese de 'Árvores submersas', um dos contos de Então você quer ser escritor?, de Miguel Sanches Neto (Rio de Janeiro: Record, 2011), de certo modo sintetiza um dos questionamentos centrais do livro: o lugar da falta na existência. A falta que motiva o trabalho de Último Mendes, que produz em busca de um sentido; a falta do pai morto, cuja partida provoca o despertar para a liberdade; a falta que conduz um jovem a buscar uma significação para a sua vida na Guerra do Paraguai. Embora a incompletude seja essencial ao ser humano, há uma diferença entre os que têm ciência dessa falta e são capazes de acolhê-la em si, construindo uma vida em que cabe a ausência, e os que insistem em ocultá-la de si mesmos; apenas os primeiros, cientes de sua precariedade, ensejam boas histórias.

É esse até mesmo o caso de Pedro, protagonista de 'Redentor' − que, vindo ao Rio de Janeiro para participar de um congresso, luta para esquivar-se dos impulsos de desejar possuir outro homem. Embora, inicialmente, tente ocultar sua condição de turista, acaba por denunciar-se ao taxista que o conduzia; do mesmo modo, deve conviver com as memórias do dia em que, ainda garoto, um amigo a ele se ofereceu, e ademais com o impulso que o faz levar uma travesti até o seu quarto de hotel. Ainda que o desejo não se converta em ato, Pedro tem ciência da fissura, do desejo que insiste em calar; por isso, é um estranho para si mesmo − e o deslocamento em que habita, enquanto turista, apenas reflete o seu desconforto existencial. Pedro, como tantos (ou todos), jamais chega a ser si mesmo.

Então você quer ser escritor? não é um livro para ser lido rapidamente; é uma obra densa, criada com esta estranha e obscura matéria de que somos feitos, que ousa dissecar cada um dos nossos equívocos e pequenas covardias. Por isso, o livro é tão incômodo. É preciso conviver com essas narrativas para compreendê-las em sua grandeza − e para admirar suficientemente a coragem com que foram escritas. Das mãos de Miguel Sanches Neto, nasce a literatura em seu melhor estado: sem tréguas ou concessões.

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