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reportagem
Minha experiência com Ayahuasca

'Quando a onda chega tudo que faço é rir da situação. As pessoas não conseguem manter um raciocínio. Nenhuma fala realmente faz sentido'


'Eu estava em pavor, a onda só aumentava e eu já não tinha mais o controle. Senti que o chá estava comendo meu cérebro e a onda continuava forte, resolvi abrir os olhos. Tudo estava em movimento' [foto daqui]


Quando novamente acordo para a realidade percebo que tenho uma pesada clava de madeira em mãos, com ela eu amasso um cipó chamado mariri até que ele possa ser desfiado. Durante o preparo você pode tomar o chá quantas vezes quiser, assim é possível ficar o dia inteiro de borracheira. Borracheira é como eles chamam a 'onda', 'viagem', o estado alterado de consciência. A borracheira modifica sua percepção do tempo e mesmo que você fique apenas curtindo a onda é sempre bom trabalhar um pouco apenas para ver se o tempo passa. Por isso estou batendo mariri, porque o tempo não passa.

Quando estamos curtindo a onda podemos nos concentrar e direcionar uma meditação, visitar nosso passado, pensar com lógica ou apenas intuir, cada onda é diferente, o que não muda é o estado de contemplação quando passa. A mente fica lerda, é mais difícil impor sua vontade e fácil obedecer seja lá o que for.

Está acontecendo a distribuição às 22h, resolvo tomar um copo cheio para mergulhar de verdade na borracheira. Quando a onda chega tudo que faço é rir da situação, das chamadas, das histórias, das perguntas. As pessoas simplesmente não conseguem manter a linha de raciocínio, nem os mestres conseguem responder de maneira lógica. Nenhuma pergunta é realmente respondida, nenhuma fala realmente faz sentido.

A doutrina não tem nenhuma lógica, é baseada em viagens psicodélicas do criador e dos mestres, talvez seja essa a beleza da doutrina, algo que não faz sentido nenhum até que você mergulha finalmente na crença cega de que o sentido está justamente ali, naquele emaranhado de 'mistérios'.

O teatro da vida

Eu não estava ali só para conhecer a doutrina e os mistérios dentro da União do Vegetal (UDV), eu tinha meus próprios questionamentos que finalmente estavam se clareando em minha mente. Minha busca era pelo sentido da vida. A 'viagem' começa exatamente onde eu estava, no sítio da UDV e começo a pensar na necessidade deles de justificar o uso do chá.

Toda aquela doutrina e hierarquia sempre me pareceram apenas uma desculpa para continuar tomando o chá, afinal ele é uma droga com o mesmo principio ativo do LSD e do Peyote, você fica 'doidão', 'viaja nas ideias', e tem ótimas sensações.

Mas parecia uma justificativa muito simplista, então minha viagem me levou a uma resposta mais interessante, e o salão se tornou um grande teatro. O mestre representante estava vestindo uma túnica grega enquanto falava para o alto, possivelmente como se estivesse conversando com deus, mas quando eu procurei, em todo o universo, onde estaria deus, não o encontrei.

Não existe uma plateia para esse teatro, todos estão interpretando a si mesmos, para si próprios - ali aprendiam com si, riam-se de si, choravam-se com si e interpretavam seus próprios personagens apenas para si mesmos.

Não há ninguém lá fora, ninguém assiste nossa bela atuação.


O sentido da vida

Mas minha mente não parava, eu sabia que aquilo ali era um reflexo de todo o resto, um reflexo do mundo inteiro e percebi a humanidade sozinha e abandonada no meio desse enorme universo.

Finalmente, senti o que eles chamam de 'peia' (conhecido também como bad trip), a sensação ruim que você pode ter durante a onda do chá. Acontece normalmente quando você enfrenta algum aspecto de sua própria vida, visita eventos recalcados, ou tem alguma iluminação especial sobre tudo que fez de ruim.

Eu estava em pavor, a onda só aumentava e eu já não tinha mais o controle, não conseguia mais rir, minha grande defesa é o riso, você pode destruir qualquer coisa com o riso, eu ria de tudo e de todos ali como forma de defesa, para que eles não me pegassem de jeito e me transformasse no zumbi sem cérebro que todos ali parecem ser.

A minha lógica sã já havia chegado nessa conclusão: não há sentido nenhum. Eu sempre soube disso, mas essa foi a primeira vez que senti essa verdade e me apavorei.

Senti que o chá estava comendo meu cérebro e a onda continuava forte, resolvi abrir os olhos. Tudo estava em movimento, essa é uma das características do DTM, ele afeta sua visão de tal forma que tudo parece estar imerso em água, e se movimento ao sabor das ondas, o movimento real você vê frame a frame, quando passa alguém a sobra do frame anterior continua por certo tempo até finalmente esse alguém parar e suas sombras se unirem todas no mesmo corpo.

Então algo me salvou do pavor, alguém fez uma pergunta, e o mestre novamente respondeu sem nenhuma lógica e finalmente voltei a rir de tudo isso. Recuperei o controle.




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Blogueiro, publicitário, um dos sócios da Agencia In Vista, estudante de jornalismo. Se interessa por psicologia, filosofia, misticismo e teorias alternativas da realidade. Foi marcado por Clube da Luta, Matrix, O Universo Numa Casca de Nós, de Stephen Hawking, pelas obras de Nietzsche, e por Mil Platôs, livro de Giles Delleuze e Felix Guatarri.
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