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reportagem
Cidades de Sonho

Construções que modificam nossa relação com o mundo, a geografia, o tempo, com as noções de original e cópia, de arte e de não-arte


'As 'dreamlands' da sociedade do lazer atenuam as fronteiras entre o imaginário e a realidade'


Em Dreamlands, exibida na França, reflete sobre a influência da estética dos parques de diversão e das exposições universais na concepção e modo de funcionamento das cidades contemporâneas. A exposição reúne obras que convergem em um ponto essencial: uma estética baseada na colagem, no pastiche, na utilização do kitsch como elemento determinante. O título da exposição remete à Dreamland, um parque de atrações inaugurado nos arredores de Nova Iorque, em 1904. Dotado de uma arquitetura que evocava o sensacional, o entretenimento e o sonho, o parque foi destruído por um incêndio, em 1911.

Las Vegas (anos 50/60) e Dubai (século XXI) são os dois grandes modelos dessa estética do entretenimento, do kitsch, da colagem, da acumulação. As 'dreamlands' da sociedade do lazer contemporânea moldaram o imaginário, alimentaram utopias e criações artísticas — e se tornaram realidade: o pastiche, a cópia, o artificial sofreram desvios e tornaram possível um lugar que atenua as fronteiras entre o imaginário e a realidade. Segundo Didier Ottinger e Quentin Bajac, curadores da mostra, essas construções 'contribuem para modificar profundamente nossa relação com o mundo e com a geografia, com o tempo, com a história, com as noções de original e cópia, de arte e de não-arte'.


Parque Dreamland, em 1905
O marco histórico que se encontra para o surgimento dessa visão pode ser colocado em 1889. Nesse ano, as exposições universais mudam de natureza: historicamente dedicadas à pedagogia científica, elas se transformam, em Paris, num vasto espaço lúdico. A Torre Eiffel é construída nessa ocasião e é o símbolo da modernidade tecnológica, explicitando que mais vale o espetacular, o maravilhoso, que o utilitário. No centro da mostra de 1889, ponto de encontro do progresso da humanidade, coexistem pavilhões que reproduzem templos chineses, palácios italianos, construções típicas alemães. Essa justaposição de emblemas arquitetônicos ilustra um mundo à parte que as exposições universais irão transmitir aos parques de diversão.

É nesse contexto que o parque Dreamland é inaugurado nos EUA. Em 1909, o Luna Park abre suas portas, em Paris, atraindo um público vasto que compreendia a comunidade artística, representada por nomes como Constantin Brancusi, Fernand Léger e André Breton. O parque tornou-se lugar de interação entre a cultura popular e o mundo artístico.

As manifestações artísticas que decorrem dessa nova ordem, do século XX até a atualidade, assumem uma pluralidade de formas. O percurso da exposição é marcado pelo ruído, tanto auditivo quanto visual. A proposta visa exatamente evidenciar o excesso. Assim, instalações, desenhos, maquetes e projetos de arquitetura e urbanismo, projeções e documentos diversos, pertencentes a coleções públicas e privadas, compõem as dezesseis seções da mostra que, apesar de exautiva – tive de voltar duas vezes para percebê-la, de fato – , é fascinante.

Dos projetos surrealistas de Salvador Dalí, até a série de fotografias Pink man in paradise (2002-2003), de Manit Sriwanishpoom ou os mapas mundi compostos por adesivos de personagens da Disney da série Assim é... se lhe parece(2009), de Nelson Leirner, as obras deixam transparecer que por trás de um 'império do kitsch' esconde-se uma sociedade regida pelo consumo e pela produção da imagem (em todas as suas acepções). A mostra também deixa evidente a impossibilidade de pensar o mundo atual a partir da pura perspectiva utópica, como 'laboratório do prazer', embora, paradoxalmente, na esfera da arte, isso ainda seja possível graças ao lugar que ela concede ao ‘jogo’, ao ‘artifício’, ao ‘alegórico’, ao ‘fantástico’.

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