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interpretação
Quero ser Vincent Prince

'Os limites entre morte e vida em uma comédia; a reconciliação entre filho e pai moribundo em fantasias circenses; um terrível vilão incitando-nos à piedade; e um musical cômico sobre assassinatos horrendos'

You’re not possessed, and you’re not almost dead
These games that you play are all in your head
You’re not Vincent Price, you’re Vincent Malloy
You’re not tormented or insane, you’re just a young boy
You’re seven years old and you are my son
I want you to get outside and have some real fun.


[leia completo]


Tim Burton, diretor da mais recente adaptação cinematográfica de Alice no País das Maravilhas, assim como Peixe Grande, Os Fantasmas se Divertem, A Fantástica Fábrica de Chocolate, entre outros, se encontra, atualmente, em sua melhor fase. Não pela qualidade de suas produções — que já se mostra desde o início — e sim pelo reconhecimento mundial desta; que agora se amplia do público para a exigente crítica. Excêntrico desde criança, poderia muito bem ser o alvo da bronca descrita acima ('você não é atormentado ou insano, você é só um jovem garoto!'). No entanto, só temos prova de que a criou nesse poema, Vincent, um de seus primeiros curta-metragens — e que abriria caminhos para o hoje aclamado diretor.



De fato, a estória poderia muito bem ser uma espécie de autobiografia do diretor. Timothy William Burton nasceu em 1958 e foi uma criança bastante tímida e isolada. Do título de bom aluno, nem passava perto; dos livros — com exceção dos de Edgar Allan Poe —, mantinha distância. O que gostava mesmo era desenhar e pintar, assim como amava filmes de terror e seus personagens sombrios — o que explica sua admiração e tributo ao ator Vincent Price. Em Vincent, Burton retrata, através da técnica de stop-motion, o menino Vincent Malloy, que, assim como Burton, passava o dia a imaginar figuras fantasmagóricas e histórias tão ou mais assustadoras que seus cenários. Malloy tinha um sonho, ou com maior liberdade poética, uma obssessão: ser Vincent Price. Isolado em seu mundo de horrores, Malloy vive enclausurado em uma sucessão de fantasias: toma seu lugar um Vincent Price com ares de cientista maluco, criador de monstros e experiências horrendas.

Burton trabalhou e/ou trabalha como diretor, produtor, ator, entre séries de animação, curta-metragens (para uma análise da primeira produção de Burton, seus pequenos filmes para a Disney e também experimentos de juventude, leia esse artigo) e longa-metragens. Poderia ter dar-se por satisfeito com essas funções; mas não foi o que aconteceu: sua produção artística compreende muito mais. Até o fim de abril, o MoMA (Museum of Modern Art, de Nova Iorque) proporciona uma viagem pela mente do diretor, abrangendo a obra, digamos, paralela. Passando por sua vida pessoal e profissional, encontram-se desenhos, sketchs e esculturas de personagens que se tornaram filmes; fotografias e storyboards representando seu ideário surreal; seus filmes, making-offs e entrevistas; e seus escritos, que semearam filmes, deram vida a livros dubiamente infantis, ou permanecem só no papel.

O cômico aliado ao sombrio, o fantástico próximo do tenebroso: estas dentre tantas habilidades do diretor-desenhista-escritor-produtor-etc serão analisadas em algumas de suas obras.

Códigos Visuais e Poética


Os Fantasmas se Divertem (1988)
No filme Os Fantasmas se Divertem (1988), Burton define um estilo visual único, — que viria a se desenvolver em seus próximos filmes — contrariando a indústria de efeitos visuais com o baixo orçamento da produção do filme. Arrisco-me a dizer que o filme tem um ar realmente trash, de mal acabado ou até mal feito; e é exatamente esta característica que prova as habilidades do diretor em transformar o trash em obra de arte. As características toscas de Bettlejuice e dos outros personagens, assim como dos cenários assombrados habitados por estes, são propositadamente utilizadas como códigos visuais para servir ao humor alucinado do diretor.

A história trata dos limites entre a vida e a morte da maneira mais cômica possível: uma família, ao se mudar para sua nova casa, descobre que os antigos moradores, já mortos, insistem em permanecer nela e espantar os novos donos. Parece uma história comum, mas não nas mãos de Tim Burton que, invertendo padrões, conta-nos a história do ponto de vista dos falecidos. Estes, ao se descobrirem em seu atual estado, simplesmente não sabem o que fazer ou como agir nesse novo mundo, dando início a uma busca por explicações que ironiza a própria condição dos vivos: os mortos também sofrem com a burocracia e só tem em mãos um manual que lhes explica como agir. Outra possibilidade, a pior de todas que lhes surge, é a de recorrer à ajuda de Bettlejuice (fantasticamente interpretado por Michael Keaton): uma espécie de advogado do diabo dissimulado em benfazejo. O terninho com largas listras que alternam o branco e o preto, o rosto esbranquiçado com fundas olheiras e o cabelo desgrenhado com um tom esverdeado tornaram-se símbolo da representação gótica atual; sendo reproduzido por artistas das mais diversas áreas.


Jack Nicholson encarnando o Coringa
Em um período do cinema mundial em que produzir filmes sobre super-heróis era certeza de obter apenas o público infantil como espectador, Burton se aventurou nas primeiras adaptações do Batman das HQs para o cinema. Resultado? Produziu não uma, mas duas verdadeiras obras de arte; filmes com códigos visuais tão marcantes e únicos que chegaram a influenciar o estilo visual das HQs produzidas pela DC Comics, que a partir de então substituiu o antigo personagem de roupas cinzas pelo de cor preta sugerida pelos filmes.

Levando adiante o ar irônico de seu estilo sombrio, Burton surge com figurinos únicos para os personagens de Batman (1989) e Batman Returns (1992). O Coringa perverso e hilário encarnado por Jack Nicholson, ressurge de paleto roxo escuro em combinação com sua calça xadrez e chapéu de mesmo tom; ironizando a perversão do personagem está a combinação esdrúxula de colete, camisa e gravata de cetim azul, assim como a maquiagem, que lhe empresta um sorriso que nunca abandona o rosto. Com Pinguim, imortalizado por Danny Devito, o diretor se supera ainda mais na perfeita união entre os códigos visuais, personalidade e origem do personagem. Este aparece em longa casaca escura com gola em peles de animais que lhe emprestam um ar aristocrático; e, derrotado, em seu ninho e ao lado de seu patinho-móvel, aparece em roupas de baixo como as de um bebê, sujo e abandonado; o Pinguim, nas mãos de Burton, é ao mesmo tempo odioso e digno de dó, vítima de sua triste história.


Danny Devito como Pinguim, em Batman Returns



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Designer e ilustradora, e não menos, apaixonada por arte. Arte no seu sentido mais amplo: as habilidades de seduzir, fascinar, e enganar; que partem da busca por ideias de beleza e da expressão da subjetividade humana. E onde vejo essa arte? Na literatura, nas artes visuais, na música e até na filosofia. Mas há nisso tudo um ponto em comum e apaixonante: a possibilidade de apreender o que há de humano nessas expressões, compreender o ser humano através daquilo que ele tenta disfarçar…
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