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interpretação
Desconstruir como Exercício Criativo

A partir da apropriação de imagens e representações diversas de outras autorias, criam-se novas imagens e representações


Pablo Picasso, Still Life with Piano, 1911


Há o artista que enxerga padrões e repetições… de formas geométricas, orgânicas, de cores… E, com estas, cria texturas que, por sua vez, dão forma a mundos imaginários. Mundos fantásticos criados a partir de uma bibilioteca de pequenos pedaços. Onde comida torna-se paisagem, corpos dividem-se e misturam-se ao cenário e objetos incorporam-se à cena como destaque.

Há o ser que descarta… Tudo para este é lixo, não-reutilizável, sobras. E por este nasce o artista que reutiliza, recorta, despedaça, descontrói; para reconstruir. A atitude de desconstruir é uma postura de desafiar a si mesmo e à sociedade, é um movimento de quebra dos paradigmas. E desta postura surgem e surgiram os artistas mais inovadores de todos os tempos, como Pablo Picasso e Georges Braque; ambos fundadores do Cubismo e concorrentes na vaga do primeiro artista a utilizar a colagem em suas obras. Sobre qual dos dois foi realmente o primeiro não há provas; há sim, inúmeras discussões sobre o tema que a nós não interessa; a colagem e seus processos, estes sim nos são de interesse analítico.

Ambos, Picasso e Braque, procuravam solucionar os problemas do caminho artístico que seguiam: suas pinturas formadas por planos sobrepostos faziam perder o sentido de profundidade e com ele, a força visual. A colagem surge então, com uma tentativa de reabilitar, com os espaços representados por sombras entre os planos, a sensação de profundidade e sua força. Os artistas acreditavam que através da representação tridimensional proporcionada pela colagem, poderiam alcançar o realismo em suas obras; como se recortes de jornais pudessem trazer o seu quê de palpável à arte cubista. O que se questiona à partir disto, é o quanto este recorte ainda mantém de real após ser incorporado a uma representação ilusória; que é do que trata a arte. Como diziam respectivamente Johann von Goethe e Platão:

'O maior problema de toda arte é causar, pela aparência, a ilusão de uma realidade superior.'

'Não irá ele fantasiar que as sombras que ele viu anteriormente são mais verdadeiras do que os objetos agora aparentes?'


Recortes de revistas e jornais, retalhos, restos descartados… Imagens sobrepostas, cruzamentos de cenas, objetos, pessoas… a partir da apropriação de imagens e representações diversas de outras autorias, criam-se novas imagens e representações — imbuídas do sentido que cada pequena estrutura formal presente na obra traz em si; formando, assim, uma representação que vai muito além do pictórico, do que se vê a princípio. É disso que trata a técnica de colagem, no original, collage. É disso que trata a técnica, já que a representação, nas mãos de diversos artistas, trata de assuntos diversos. Em comum, expressam a relação do ser com seus objetos, do ser com o espaço, do ser com o corpo.

Nas próximas páginas, conheceremos uma série de artistas que exploram esse tipo de representação, cada qual com sua visão particular: Tide Hellmeister (pg. 2); João Colagem (pg. 3) e Silvio Alvarez (pg. 4).



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Designer e ilustradora, e não menos, apaixonada por arte. Arte no seu sentido mais amplo: as habilidades de seduzir, fascinar, e enganar; que partem da busca por ideias de beleza e da expressão da subjetividade humana. E onde vejo essa arte? Na literatura, nas artes visuais, na música e até na filosofia. Mas há nisso tudo um ponto em comum e apaixonante: a possibilidade de apreender o que há de humano nessas expressões, compreender o ser humano através daquilo que ele tenta disfarçar…
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