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reportagem
Otimista Incorrigível

'O tipo ideal de leitor: o que sabe que nenhuma leitura é perda de tempo se der prazer'


Caricatura de Mindlin, feita por Rice Araújo, disponível nesse blog.
O advogado, empresário e bibliófilo José Mindlin faleceu no último dia 28 aos 95 anos de idade. Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) e dono da mais importante coleção de livros privada do país, ele deixa acervo com cerca de quarenta mil volumes para biblioteca 'Brasiliana Guita e José Mindlin', que está sendo construída na Universidade de São Paulo. Sobre sua paixão, diz: 'os livros não caem do céu: a gente os procura e, coincidentemente e principalmente em matéria de livros raros, eles também nos procuram'.

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A primeira e única vez que o vi pessoalmente foi em palestra proferida junto a Antonio Candido em ocasião dos 50 anos da obra Corpo de Baile, de Guimarães Rosa. No pequeno auditório do prédio de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, algumas centenas de alunos se acotovelavam para ouvir esses dois 'mitos' da intelectualidade nacional. Sendo o primeiro a falar, José Mindlin gracejou, pois 'seria difícil' ter a palavra depois de Antonio Candido, a quem considerava como 'irmão mais novo'. Dele, escreve o autor de Literatura e Sociedade:

'[Mindlin] é leitor onívoro, pronto para ler tudo, desprezando projetos sistemáticos de leitura, interessando-se pelos assuntos mais variados. E, ao mesmo tempo, sabe selecionar os livros, organizá-los, distinguir filões e ter preferências, que se vão tornando as dominantes do seu gosto. Indiscriminado e seletivo, glutão e refinado, ele é o tipo ideal de leitor, porque sabe que nenhuma leitura é perda de tempo se der prazer'

(Prefácio ao livro Uma Vida entre Livros, p.11 — leia trechos online aqui)


Com seu aspecto sereno e um sorriso no rosto, Mindlin conquistou a platéia com suas histórias sobre Guimarães Rosa e seus livros. Uma relação não apenas de admiração mas de intimidade com autor e obra (é dele, por exemplo, os escritos originais do livro Sagarana, de Rosa). No meio da multidão de alunos, ouvia-se: 'ele é uma graça, queria que fosse meu avô'. Fato é que o bibliófilo não era o mais aguardado por muitos que ali estavam, jovens estudantes, que pouco conheciam de sua história como, entre muitas outras funções, advogado, reconhecido empresário da Metal Leve S/A peças automotivas, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e Secretário Estadual da Cultura por São Paulo durante o período da Ditadura Militar. Neste posto, convidou o jornalista Vladimir Herzog para a diretoria de jornalismo da TV Cultura e, de acordo com o governador do estado de São Paulo, José Serra: 'sabe-se que os torturadores dos jornalistas presos procuravam, também, incriminar a Mindlin. E ele soube se comportar com altivez e dignidade diante das ações da ditadura que levaram à morte de Herzog'.

Talvez ele tenha sido, como nas palavras do escritor Jorge da Cunha Lima em seu blog, uma unanimidade discreta. Reconhecido por uma postura sempre educada, íntegra e que se preocupava com o País, Mindlin afirmou: 'despertar na grande massa o interesse pela leitura, antes de tudo como fonte de prazer, constitui, a meu ver, um fator essencial de desenvolvimento'. E: 'sou um otimista incorrigível', como disse em entrevista ao Roda Viva. Seu trabalho não era de crítico, romancista ou ensaísta, era o de um homem que amava a leitura e os livros, e fez deles um dos principais interesses da sua vida.

Garimpagem


Em Uma Vida Entre Livros, Mindlin relata sua vida como colecionador de livros raros
Mindlin seguia seu amor com critério, os livros eram garimpados com dedicação. A semente para a busca de raridades, diz em seu discurso de posse na ABL, foi plantada aos 13 anos, quando começou a frequentar os sebos de São Paulo e encontrou uma edição portuguesa do Discurso sobre a História Universal, do bispo e teólogo francês Jacques Bossuet, publicado em Coimbra, em 1740, data que o fascinou, 'embora mais tarde tivesse aprendido que a data das edições é um elemento secundário em sua importância'.

Entre muitas histórias, passou 15 anos atrás de um exemplar da primeira edição do romance O Guarani, de José de Alencar e era de sua biblioteca a primeira edição dos Ensaios de Montaigne, datada de 1588. Em seu livro Uma Vida entre Livros, editado pela Companhia das Letras, o brasileiro pede a palavra emprestada ao francês: 'quando encontro dificuldades na leitura, não me preocupo demais, pois se insistisse perder-me-ia e o meu tempo; meu espírito é de compreensão imediata. O que não entendo à primeira vista, entendo menos me obstinando. Não faço nada sem alegria'

E na alegria de sua eleição para a Academia Brasileira de Letras em 2006, o destino, em suas próprias palavras, 'trouxe um contraste entre uma grande alegria e uma tristeza profunda' levando para sempre sua companheira da vida inteira, Guita Mindlin, poucos dias depois. Mindlin ocupou a cadeira de número 29, cujo patrono é Martins Pena e foi ocupada por Arthur Azevedo, Vicente de Carvalho, Cláudio de Sousa e Josué Montello. De Vicente de Carvalho, o bibliófilo possuía o original manuscrito do poema 'O Pequenino Morto' publicado em 1904 pelo jornal O Estado de S. Paulo. Nesse jornal, começou como repórter antes de completar dezesseis anos de idade. Segundo ele, 'fui repórter precoce. Eu já escrevia razoavelmente, mas O Estado era rigoroso no Português, escrever com correção e clareza, eu aprendi lá'.

Acostumado a viver desde cedo em um ambiente letrado — suas primeiras leituras 'sérias' foram O Monge de Cister e O Bobo, de Alexandre Herculano, aos 12 anos de idade — Mindlin foi sim, precoce, mas a formação de sua biblioteca não tem a ver diretamente com isso, não foi planejada, mas aconteceu em razão de suas leituras e essas, em suas palavras, continuaram sendo seu 'fulcro e razão de ser'. A garimpagem das obras trazia um sabor especial:

'Os livros não caem do céu: a gente os procura e, coincidentemente e principalmente em matéria de livros raros, eles também nos procuram. A aventura da garimpagem provoca, mesmo em céticos como eu, a suspeita de que alguma coisa sobrenatural possa estar protegendo as buscas do leitor apaixonado. Chego a pensar que embora a leitura seja uma fonte inesgotável de prazer, a garimpagem provoca um prazer diferente, às vezes superior ao outro. Quando se encontra uma obra procurada durante décadas, o coração bate mais forte'.


O coração também bate forte ao ouvir a voz serena — igual a que ouvi naquela palestra sobre Rosa — declamando o último parágrafo de uma das maiores obras da literatura brasileira: Grande Sertão: Veredas (da qual o bibliófilo tinha a primeira edição). Por este link, você ouve a gravação. Que o fim dessa homenagem seja assim, bela e universal, na voz do homem que tinha pelos livros o seu fascínio:

Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro.

Para a velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro.

O Rio de São Francisco — que de tão grande se comparece — parece é um pau grosso, em pé, enorme... Amável o senhor me ouviu, minhas idéias confirmou: que o diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano.

Travessia.


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