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Artes
[Indicação] O Segredo dos Seus Olhos

Personagens bem construídos, roteiro eficiente e verossímil, bela trilha sonora e incrível capacidade do diretor de captar as emoções do elenco


'Uma bela crônica sobre a sociedade argentina. No Brasil, ainda não há quem retrate a brasilidade com sutileza e tanta carga cultural'
(...) O argentino Ricardo Darín é um de meus atores preferidos. Também considerado como um dos maiores expoentes portenhos há 30 anos, O Segredo de Seus Olhos é o 28º filme de Darín, que já protagonizou longas excelentes como Nove Rainhas – que o empurrou ao sucesso -, Kamchatka e XXY. Mais importante do que somente a carreira de Darín, contudo, é preciso frisar que esta é a quinta parceria entre o ator e o diretor Juan José Campanella (com quem trabalhou em O Mesmo Amor, A Mesma Chuva, O Filho da Noiva, Clube da Lua).

A trajetória da dupla já é motivo suficiente para querer assistir o novo filme. Indo na mesma onda de Hollywood – e, ao mesmo tempo, afastando-se dela de forma abissal – a história é baseada no livro homônimo do escritor Eduardo Sacheri – a qual infelizmente não tive oportunidade de ler. Benjamin Espósito é um advogado aposentado, ex-Ministro da Corte de Buenos Aires, que trabalhou durante muitos anos com a mesma equipe: sua chefe Irene Menéndez Hastings, e seu assistente Pablo Sandoval.

Após se aposentar, contudo, Benjamin sente a necessidade de ocupar seu tempo 'de velho' (como ele mesmo observa) com um novo projeto. Ele pretende escrever um romance sobre o terrível caso Morales, que aconteceu 25 anos antes. Entrecortando planos de flashback de 1974 (época do crime) e de 1999, vemos um Benjamin atormentado com o caso, que o obcecou na época e voltou a perturbar seus sonhos.

Com a ajuda do tribunal onde trabalha, ele e Sandoval tentam desvendar o mistério do estupro e assassinato de uma linda jovem recém-casada, que deixou para trás um marido completamente apaixonado e perdido no tempo. Paralelamente a isto, vemos a história de amor platônico entre Benjamin e Irene, que sempre esteve às vias de acontecer, não fosse a irritante lerdeza do advogado – como a própria doutora aponta em determinado momento.

Muito resumidamente – pois não pretendo estragar nenhum segundo desta obra-prima - vemos personagens extremamente bem construídos e completos, costurados sobre um roteiro eficiente e verossímil, que mescla a bela trilha sonora de Federico Jusid e Emilio Kauderer com a incrível capacidade do diretor de captar as emoções do elenco. Alguns planos – como a abertura (com a trilha melancólica escorrendo como a água escorre dos vidros do trem), ou como a sequencia do estádio de futebol – são espetaculares.

Todos os personagens têm características muito fortes, quase estereótipos. Assim, Irene é a chefe bela e dura; Sandoval é o assistente brilhante, porém alcoólatra; o juiz responsável pelo ministério é estúpido; e Benjamin, por sua vez, é inconsequente e obcecado com quase tudo que o cerca.

Em alguns momentos, seu comportamento me lembrou o do Dr. Gregory House, da série de televisão homônima – também o relacionamento entre ele e Sandoval me lembrou a dos dois médicos principais, House e Wilson. Isto se deve, sem sombra de dúvidas, à influência que Campanella teve ao dirigir alguns episódios de House, e também de outras como Law and Order e 30 Rock.

Não bastasse isso, os diálogos são maravilhosos. Especialmente os de Irene, que abusa da ironia para construir uma personagem carismática, mas ao mesmo tempo muito fria. O discurso do Sandoval sobre as paixões que nunca mudam é emocionante e culmina com o achado do responsável pelo crime – após o interrogatório psicológico de Irene. Até mesmo o título do filme é totalmente apropriado à proposta.

Apesar de ser uma metalinguagem previsível entre o romance que Benjamin escreve e aquele que vive, é interessante observar que a história dá voltas, e o espectador é sempre pego de surpresa, em uma mistura bem costurada de sentimentos.

O Segredo dos Seus Olhos reúne, por fim, elementos de um thriller policial, mas também os de um filme de comédia, de desilusão, de drama, de perda, de suspense e de romance. Só podemos atribuir este enorme êxito à Campanella, que desenvolveu uma bela crônica sobre a sociedade argentina – coisa que, por aqui, é raro encontrar. No Brasil, ainda não há quem retrate a brasilidade com sutileza e tanta carga cultural sem entrar no mérito 'favela-movie'.

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texto originalmente publicado no blog da leitora, neste post.

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