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debate público
A Educação do Sensível no Brasil

André Carrico analisa como erra o ensino de Artes nas nossas escolas e os problemas que isso acarreta para a sociedade

A falta de sensibilidade não é uma prerrogativa brasileira, mas um câncer mundial. Entretanto, se compararmos com outros países (não apenas os mais ricos e educados, mas alguns países mais pobres), a ignorância e a violência social – que não é a dos bandidos – são maiores por aqui. Mães que encarceram e torturam seus filhos; netos que acorrentam suas avós; enfermeiras que espancam idosos; homens que atiram em brigas no semáforo; rapazes que atropelam intencionalmente frentistas nos postos... Notícias tristes, que retratam nosso vazio sentimental. Um dos motivos que geram e ampliam esse caos na percepção da alteridade é a pobreza na maneira como as aulas de Artes têm sido dadas na maioria de nossas escolas.

Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais, o ensino de Artes (não mais Educação Artística, pois não se trata de formar artistas ou focar a didática nas técnicas) deve ser um momento em que o aluno tenha a oportunidade de despertar e desenvolver a sua Criatividade. Para tanto, ele não deve ser um mero reprodutor que copia obras, coreografias ou decora textos teatrais que o professor impõe, mas sim um agente criador que, estimulado por temas e pela mediação do educador, crie a sua própria obra. Segundo a metodologia triangular de Ana Mae Barbosa, o aprendiz deve ter acesso a três momentos no ensino da Arte: o da produção, em que faz; o da reflexão, no qual aprende e exercita seu senso crítico a respeito do papel da Arte como agente transformador da sociedade através da História; e o da fruição, quando o aluno é plateia (não spect-ator) e institui relações estéticas no diálogo que estabelece com a obra dos artistas.

Para o professor João Francisco Duarte Jr., no livro Por que Arte-Educação? (Papirus, 2003) é na experiência estética que a imaginação amplia os limites impostos pelo nosso dia-a-dia, cada vez mais racionalizado no cotidiano da sociedade pós-moderna. Conforme diz, os sentimentos se refinam pela convivência com os símbolos da Arte. Ela, dentre todas as matérias escolares, é a que mais tem essa capacidade de desenvolver a nossa percepção (a elaboração mental de nossos sentidos). Devemos, portanto, ser educados para apreciar o Belo, não apenas o da linguagem artística, mas o Belo presente ao nosso redor, na vida. Só a Arte possibilita o acesso a sensações distantes de nossa vida comum, estimulando em nós sentimentos a partir do retrato de um 'outro'.

A Arte dentro da escola, vista como instrumento da Educação, não pode ser exercida como um momento de treino para fazer do aluno um artista. Se for assim – e é assim que infelizmente ainda faz a maioria das escolas – apenas cinco alunos de cada classe, aqueles com talento, poderão obter bons resultados. Os outros, muitas vezes, acabarão não apenas por bloquear suas capacidades criativas e sensíveis, ao frustarem-se por não conseguir copiar a tela da lousa, mas desenvolverão ojeriza pelo contato com a Arte, na medida em que não foram 'alfabetizados' nos signos dela. Tornam-se adultos recalcados, frustrados, insensíveis; os mesmos que expõem a sua fúria no convívio social. A Arte deve então servir de ferramenta pedagógica na mão do educador, capaz de despertar habilidades como a imaginação, a percepção, a socialização e a espontaneidade. Ela tem a ver com um modelo educacional fundado na construção de um sentido para a vida, ético e sensível, e próprio de cada aluno.

texto gentilmente cedido por André Carrico para a revista. Carrico é doutorando em Artes pela Unicamp, ator, diretor teatral e professor universitário de Arte-Educação. (andre.carrico@ig.com.br, http://andrecarrico.blogspot.com)

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