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debate público
Personas e Máscaras Femininas na Literatura

Na literatura, vemos várias 'imagens' da mulher; máscaras, papéis e rótulos que são atribuídos aos personagens femininos e refletem, senão a própria mulher, seus desejos e sonhos

'Um traço comum à multidão das mulheres marcadas por um destino excepcional, é o se sentirem incompreendidas; os que as cercam não reconhecem sua singularidade - ou não o fazem suficientemente; elas traduzem positivamente essa ignorância, essa indiferença dos outros pela ideia de que encerram em si um segredo… É por não poder exprimir-se na ação cotidiana que a mulher também se acredita habitada por um mistério inexprimível; o famoso mito do mistério feminino encoraja-a a isso e vê-se, em compensação, confirmado.'

Simone de Beauvoir




Lesendes Mädchen (Garota Lendo), de Franz Eybl (1850)
Através da literatura podemos percorrer os diversos caminhos traçados pelas representações da mulher. Estas máscaras, papéis e rótulos que são atribuídos aos personagens femininos muitas vezes refletem se não a própria mulher em sua época e sociedade, ao menos seus desejos e sonhos. Muitos aspectos poderiam ser analisados entre a mulher-imagem da literatura e a mulher-real; aspectos estes que, assim como o fiz, rotulam-nas de acordo com seus sonhos, desejos, atitudes, pensamentos... Rótulos que são governados pelas possibilidades, pela sociedade e cultura; em síntese, pelas circunstâncias. Alguns podem ainda clamar pelas questões físico-orgânicas relativas ao que Simone de Beauvoir — filosofa e feminista francesa que viveu o maior período de libertação feminina à partir da década de 1940 — denominou 'natureza feminina', e questionou como sendo ou não uma natureza orgânica definitiva da mulher. Aqui, atenho-me às questões que se colocam como possibilidade de uma discussão abstrata, deixando as outras ainda sem resposta, para os cientistas.

Passeando os olhos por uma enorme estante imaginária, recheada de livros representantes da literatura atual ou pertencentes ao passado; denominados eruditos ou os vulgarmente chamados de massa; encontro muitas personas merecedoras de uma análise mais profunda. O espaço torna-se interessante, se analisarmos estas personas, diante da mulher-representante-de-sua-época em suas já citadas circunstâncias, na tentativa de encontrar um paralelo com as mulheres-reais descritas por Simone de Beauvoir em seu livro O Segundo Sexo. À partir das analogias apontadas, o olhar é direcionado a prescrutar a mulher-real. Mas não me refiro àquela que se vê pelos olhos da sociedade, o olhar externo que invade e julga; e sim àquela que se sente do interior, cujo movimento se dá do profundo ao aparente. Como estas obras literárias podem nos guiar nessa direção? De diversas formas. Algumas pela incrível capacidade do autor de absorver o feminino em sua realidade, e transpô-las em personagens de belas histórias. Outras, nem tanto por algum tipo de proeza literária, mas pela capacidade de vislumbrar - mesmo que inconsciente - medos e sonhos de sua geração de mulheres; e através de personagens irreais proporcionar a possibilidade da realização destes sonhos em um envolvimento emocional com suas histórias de contos de fadas.

Decidi pela escolha de livros cujos autores tenham esta possibilidade de realizar o movimento de absorção do interior para o exterior; de compreender a sensação de não saber exatamente quem é, ou onde deveria estar; de enxergar o mundo através dos rótulos atribuídos e carregados durante a história por sua classe: desde os fundamentais menina-mulher, mulher-mãe, mulher-avó, aos famigerados mulher-macho, mulher-objeto, mulher-histérica. Estas características únicas, me apontam a uma seleção des livros escritos por mulheres-autoras-escritoras. Estas, por recriarem personagens e histórias, são também mulheres-livres, baseando-se na afirmação de Beauvoir:

'A arte, a literatura, a filosofia, são tentativas de fundar de novo o mundo sobre uma liberdade humana: a do criador. É preciso, primeiramente, se colocar sem equívoco como uma liberdade, para alimentar tal pretensão.'


Os livros, assim como qualquer expressão artística, respondem à uma demanda específica pelo consumo da arte; e para obter aceitação, deve fazer com que seus espectadores identifiquem-se com suas histórias e personagens. Identificação que pode dar-se pelas semelhanças, ou opostamente pelas diferenças: que se mostra no desejo do espectador de possuir o que não pode, ou de tornar-se quem tão pouco pode ser. A literatura, neste extremo, torna-se responsável por suprir mentes e corações carentes daquilo que não há: fantasia, imaginação. A literatura, atende ao apelo desesperado destas mulheres sem lar, mulheres dissociadas de sua verdade por estarem rendidas aos papéis impostos pela sociedade.



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Designer e ilustradora, e não menos, apaixonada por arte. Arte no seu sentido mais amplo: as habilidades de seduzir, fascinar, e enganar; que partem da busca por ideias de beleza e da expressão da subjetividade humana. E onde vejo essa arte? Na literatura, nas artes visuais, na música e até na filosofia. Mas há nisso tudo um ponto em comum e apaixonante: a possibilidade de apreender o que há de humano nessas expressões, compreender o ser humano através daquilo que ele tenta disfarçar…
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