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reportagem
Desafio de Escrever uma Vida

Didatismo, busca de identidade, registro histórico ou jornalístico, uso ideológico/comercial — tendências que podem existir no exercício biográfico


O historiador francês François Dosse
Em O Desafio Biográfico — Escrever uma Vida, o historiador François Dosse remonta as origens do gênero 'biografia', suas raízes e suas transformações ao longo do tempo. De um uso, digamos, didático da vida de certa pessoa, passou-se a um modelo mais científico de trabalho; e a imagem do biógrafo caminhou de desprezada para legítima. Além da revisão, Dosse dá sinais de novas perspectivas para este tipo de produção: a biografia post-mortem, a que investiga as reutilizações diversas que encontram personalidades famosas após a sua morte. Todo este panorama informacional nos ajuda a nos distanciar criticamente dos livros biográficos que conhecemos, vendo assim que função cumprem e o que não fazem. Aqui no Brasil, temos livros importantes de Fernando Morais (O Mago; Olga; Chatô) e Ruy Castro (Anjo Pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues); e Lira Neto recentemente lançou Padre Cícero — Poder, Fé e Guerra no Sertão; há esses e outros possíveis exemplos.

Primeiramente, o esforço da biografia era por transmitir um exemplo — encontrava os seus objetos na imagem do ‘grande homem’: são as histórias dos heróis antigos, dos santos, etc. Vidas Paralelas, do historiador grego Plutarco, segue esse esquema. Apresenta 23 pares de biografias, cada qual com um grego e um romano, ambos ilustres por algum motivo (a obra é de domínio público e pode ser baixada aqui). Disso se passou a uma busca por identidade na produção biográfica, até que sucessos do gênero na área editorial criaram demanda pelas obras. Se antes disso, como Dosse, bem humorado, conta, um autor diria: 'Não diga para a minha mãe que sou escritor de biografias — ela pensa que sou pianista em um bordel' — depois do aumento de visibilidade, esse tipo de texto passou a ter a atenção de historiados e outros profissionais (no Brasil, a produção parece em maior parte ser feita por jornalistas).

Falando das possibilidades da biografia, seu subgênero post mortem, Dosse cita o caso de Joana d’Arc — que, como outras personalidades históricas mantém uma vida múltipla no terreno das ideias e dos debates ideológicos. O historiador falou de como a vida de Joana é usada por correntes políticas conflitantes, cada qual usando a faceta que lhe serve. Na Cult, Márcia Tiburi chamou o efeito de tanatografia: 'ao contrário da narrativa biográfica, é a antinarrativa por imagens que tem a função de manter uma espécie de vida após a morte para as deidades do nosso tempo'. Ela analisa o caso Michael Jackson: 'urubus miram o cadáver para retirar dele resquícios do que ali fora vivo, aquele mínimo aproveitável na escala de metas da avareza'. A filósofa acaba tratando do tema de outra perspectiva, talvez longe da de Dosse, mas nos serve à discussão.

Didatismo, busca de identidade, registro histórico ou jornalístico, uso ideológico/comercial — são tendências que podem existir dentro do exercício biográfico. Ler Dosse pode servir para esclarecer, não só os textos citado no primeiro parágrafo, mas a série de cinebiografias que foram lançadas nesses últimos tempos: Che (1 e 2), de Steven Soderberg; Coco Antes de Chanel, de Anne Fontaine; Milk, A Voz da Igualdade, de Gus Van Sant; Kurt Cobain — Retrato de uma Ausência, de AJ Schnack; entre outros mais antigos.

As informações de base deste texto são de uma palestra realizada pelo autor no IEB/USP.

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