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Artes
[Antologia] Ivo Korytowski

Ivo Korytowski é tradutor, fotográfo e escritor. Já colaborou com Capitu, resenhando um livro da Companhia das Letras traduzido por ele: A Biblioteca Perdida de Hitler. Além desse traduziu para a mesma editora Breve História de Quase Tudo, de Bill Bryson; e As Entrevistas de Nuremberg, de Leon Goldensohn; entre outros. Ele publicou vários livros: Édipo, primeiro lugar do Prêmio Orígenes Lessa da União Brasileira de Escritores de 2003; Português Prático; Erros Nunca Mais; Sopa no Mel, A Arte da Escrita, Manual do Poeta, etc. Mantém os blogs Literatura e Rio de Janeiro e Sopa no Mel.

Abaixo, você lê três textos enviados pelo autor. Círculo Vicioso, é, como Korytowski diz, um texto da adolescência ('adolescência nos anos 60!', ele destaca), e possui uma ideia de esperança (que ao fim parecerá ingênua) frustrada pelas circunstâncias que nós também podemos encontrar em músicas como Ele falava nisso todo dia, de Gilberto Gil ou Pedro Pedreiro, de Chico Buarque, com, é claro, diferenças de estilo e lirismo entre os exemplos. Terra sem Males é uma crônica com algum humor, com alguma crítica, com um ritmo rápido e referências distantes entre si, desde Tupã à Dostoiévski, Souza Cruz e a Campanha da Fraternidade.

O poema de W.H. Auden (1907 - 1973), o nº9 de Twelve Songs, é o terceiro texto, como anunciado na página inicial. Auden foi um poeta e crítico inglês, voz dos intelectuais de esquerda dos anos 1930. Vocês podem ler o original aqui e avaliar as escolhas feitas pelo tradutor, como o uso de pontos de exclamação, ausentes antes, aumentando o ênfase de alguns versos. O poema aparece em uma das cenas do filme Quatro Casamentos e um Funeral, que você pode assistir pela Youtube (sem legendas).

Círculo Vicioso

No casebre humilde do bairro de periferia, o esfarrapado adolescente, arrimo de família, sonha: 'Se ao menos pudesse estudar, progredir na vida, seria feliz!'
Belo rapaz, dir-se-ia galã de novela!
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Cercado de apostilas, o jovem estudante enfrenta a tabela periódica de elementos, preparando-se para o vestibular, e sonha: 'Se ganhasse dinheiro de montão, abandonaria essa droga de estudos pra curtir a vida... e seria feliz!'

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À beira da piscina, em sua mansão nos Jardins paulistas, o pai indaga do filho: 'O que você quer se passar no vestibular: carro, viagem à Europa?' O rapaz, alheio às ofertas do pai, sonha: 'Sei que as garotas só ficam comigo por causa da grana. Se eu fosse bonito como galã de novela, seria feliz!'
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No casebre humilde do bairro de periferia, o esfarrapado adolescente, arrimo de família, sonha: 'Se ao menos pudesse estudar, progredir na vida, seria feliz!'
Belo rapaz, dir-se-ia galã de novela!


Terra sem Males

A Campanha da Fraternidade daquele ano preconizou a demarcação das terras indígenas, e os políticos brasileiros — ano eleitoral — daquela vez, contrariando a tradição, fizeram o dever de casa direitinho.

Tupã viu que, enfim, fizera-se justiça para com seu povo. Reuniu o conselho dos deuses que regem os destinos do Brasil, ele próprio, Olorum, Nossa Senhora da Aparecida etc. a fim de instaurar a terra sem males — abundância de caça e pesca, bom clima e paz — dos milenares sonhos indígenas.

Dia seguinte, estourou o escândalo no Canadá: contabilidade da Bombardier manipulada, dívida da empresa tecnicamente impagável, falência decretada. Por outro lado, sucessão de acidentes envolvendo aeronaves Airbus e Boeing fizeram com que passassem a ser vistas com desconfiança por viajantes do mundo inteiro. Da noite para o dia, a Embraer acordou como o mais requisitado fabricante de aviões do mundo, torrentes de divisas para o Brasil.

Os temidos chefes do tráfico (iluminados pelo Espírito Santo?) passaram a se comportar como criminosos de romances de Dostoiévski (mostrando que, às vezes, a vida pode imitar a arte). Acometidos de crises de consciência e profundos remorsos, depuseram os fuzis, granadas e bazucas, entregaram-se às autoridades policiais, alguns se converteram à religião evangélica, contritos. Graças a Deus!

Na outra ponta, convencido enfim dos terríveis malefícios do cigarro, o Congresso proibiu sua fabricação e venda em todo o território nacional. Mas para evitar o fechamento da Souza Cruz e os terríveis problemas sociais que daí decorreriam, a fábrica foi autorizada a produzir e distribuir cigarros de diamba (tradicional erva indígena com efeitos tranqüilizantes — e às vezes alucinógenos). A paz e o amor reinaram sobre o país, bicho!

Os carnavais baiano e carioca tornaram-se permanentes: todo fim de semana trios elétricos e desfiles de escolas de samba traziam alegria ao povo. Por que parar, parar por quê?

Psiquiatras, médicos e psicanalistas enfim estabeleceram cientificamente que 'cerveja refresca até pensamento', o que valeu ao Brasil o primeiro prêmio Nobel (de Medicina), e o néctar dos deuses — devidamente acompanhado de praias e 'gatas' de biquíni — passou a ser indicado no mundo inteiro para pacientes depressivos e ansiosos.

Intelectuais franceses decretaram a morte do Modernismo e a volta do Romantismo. A televisão brasileira aproveitou-se da onda estética pra transformar a novela brasileira — a legítima sucessora do folhetim do século XIX — no segundo maior produto de exportação do país. De repente, norte-americanos, franceses, chineses, o mundo todo emocionava-se com as peripécias rocambolescas de nossos personagens e papagueava nossas falas e macaqueava nossos hábitos e costumes. (Em Londres, por pressão da opinião pública, as vetustas cabines telefônicas foram substituídas por alegres orelhões à carioca. Yes, sir!)

Intelectuais estrangeiros, pra melhor compreender o fenômeno, passaram a estudar o idioma de Camões. A moda pegou e, em pouco tempo, cursos de Português pululavam abrindo enorme mercado de trabalho pra brasileiros aventureiros dispostos a correr o mundo.

A terra sem males, onde negros, índios e brancos de todos os matizes conviviam harmoniosamente, atraiu a atenção de cientistas sociais e de políticos do mundo inteiro: consultores brasileiros passaram a ser contratados a peso de ouro pra desatar os 'nós górdios' das outras partes do mundo (consta que patrício nosso enfim solucionou a cizânia israelense-palestinense, transformando as colinas e bazares de Jerusalém num imenso Carnaval).

Os sem-terra ganharam terras, os sem-teto ganharam teto, os deserdados da sorte ganharam polpudos prêmios do Show do Milhão, Totobola, Raspadinha, e os escritores sem-livro enfim viram suas obras publicadas... e lidas!

Só quem não gostou daquela alegria toda foram os profetas do apocalipse — sisudos, auto-exilados nas torres de marfim, as sempiternas previsões pessimistas definitivamente contrariadas pelos fatos. Razão tinha o carnavalesco (e sábio) Joãozinho Trinta, ao diagnosticar: 'O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual'.


Poema nº9 de 'Twelve Songs', W. H. Auden

Relógios, parar! Telefone, desligar!
Um osso suculento pro cão não ladrar.
Pianos, silêncio! Com dobres de finados
Tragam o caixão, venham os enlutados.

Aviões circulem chorosos pelo céu
Escrevendo uma mensagem: ele morreu.
Os pombos da rua laços de crepe ostentarão
Os guardas de trânsito, luvas pretas de algodão.

Ele era meu sul, norte, oriente, ocidente
Domingo de lazer, meus dias de batente
Meio-dia, meia-noite, papo, canção
Pensei que o amor fosse eterno: triste ilusão!

Sejam expulsos os astros, já não fazem sentido,
A lua empacotada, o sol destruído!
Os oceanos, secados, a mata, ceifada,
Já que tudo isso não serve mais para nada!


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